Esta é uma hipótese de pesquisa que estou começando a formular e que procura explicar o atual momento da arte, em especial da pintura e em particular daquela dita “ocidental”. Mais precisamente, aquela que se originou no continente europeu e que se tornou a arte pictórica do mundo globalizado.

A idéia é que a pintura teria vivido vários “ciclos escatológicos” (escatologia aqui entendida como sinônimo de “fins últimos”). Estes ciclos teriam se tornado cada vez mais rápidos e efêmeros à medida que o movimento do capital acelerou o ritmo da vida em sociedade.

O primeiro grande ciclo escatológico da pintura ocidental foi o do divino: a arte mirando o transcendente. Nada é mais representativo dessa tendência do que o fundo dourado de várias pinturas românicas, como que dando a entender que o mundo, a natureza para além da cena retratada (sempre de caráter religioso), pouco importa.

O segundo grande ciclo escatológico foi inaugurado por volta do século XIII, quando vários fatores começam a se combinar para produzir uma proto-burguesia. A arte gótica aumenta o realismo na pintura e homens como Giotto não apenas pintam santos de forma mais realista como também passam a pintar personagens não religiosos. Este ciclo escatológico mira o real, o imanente, o “mundo”. Seu ápice é o Renascimento e ele perdura até o século XIX, com o realismo.

O terceiro grande ciclo escatológico começa em algum momento do século XIX (provavelmente com Turner). É o ciclo escatológico que problematiza o real para poder colocar em destaque o sujeito. Seu ponto máximo é justamente o Impressionismo e ele perdura até as vanguardas do século XX.

Este terceiro ciclo escatológico se esgota na arte abstrata, num mergulho tão intenso no sujeito que o real simplesmente desaparece. Esgotadas as (re)presentações do divino, do real e do sujeito, o que teria sobrado para a arte enquanto escatologia?

Ora, como fica claro acima, tais ciclos estão intrinsecamente relacionados com o contexto sócio-econômico-cultural que os cerca. A arte, como não poderia deixar de ser, é uma produção do homem em seu tempo e local. Ocorre que o esgotamento dos ciclos escatológicos da arte é simultâneo a uma revolução interna do capitalismo, que vem ocorrendo desde os anos setenta do século passado e cujo principal sintoma é a financeirização do capital.

O dinheiro sempre carregou consigo o “problema” de ser valor de troca sem valor de uso. Mas, a produção de dinheiro também sempre esteve mediada pelo trabalho. Com a crescente financeirização do capital, entretanto, cria-se a ilusão de que, pela primeira vez na história, é possível criar riqueza sem trabalho.

Vivemos, então, em um mundo onde uma arte sem escatologia encontra um capitalismo sem valor de uso. É aqui que a arte encontra sua derradeira escatologia: a de ser mero valor de troca, instrumento de pura valorização do capital.

Não há mais a necessidade de valor de uso para a arte do século XXI. Uma obra de arte de US$ 3 milhões teria todo seu valor reduzido a sua capacidade de amanhã valer US$ 5 milhões.

Se, por um lado, é impossível sonhar com um retrógrado retorno aos ciclos anteriores, o atual estágio de uma arte cuja escatologia é a pura troca torna-se absurdamente desprovido de sentido. Não se trata, enfim, de uma arte pós-moderna, mas de uma arte hiper-capitalista. O inevitável passo seguinte é que a própria obra de arte se virtualize, em um salto para dentro de si mesmo: um quadro vazio, leiloado em Londres, em algum dia nublado, por dezenas de milhões de dólares!

Vale a pena ler: “Privatização da cultura: a intervenção corporativa nas artes desde os anos 80”, de Chin-Tao Wu, editado no Brasil pela Boitempo e o Sesc-SP.