A Operação Lava-Jato implicou em perdas para a Odebrecht, a principal empreiteira atingida pelas investigações. Com isso, a empresa brasileira optou por se desfazer da Mectron, subsidiária integral da Odebrecht Defesa e Tecnologia ODT) que atua em áreas como radares e sistemas de comunicação. Sob o guarda-chuva da ODT sobraram apenas as atividades relacionadas ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub). Parte dos projetos da Mectron foram vendidos à israelense Elbit, mas outra parte continuou em mãos brasileiras, repassada para a Avibras.

Para alguns setores da esquerda interessados em construir uma narrativa redentora para a candidatura de Lula em 2018, é fundamental construir a idéia de que todos os problemas do país tiveram origem com o impeachment de Dilma Roussef, em 2016. O mesmo ocorre com o setor de defesa. Segundo este raciocínio, antes havia um portentoso desenvolvimento de empresas de capital nacional no setor de defesa, bruscamente interrompido pelo governo Temer.

Mas os fatos são mais complexos do que o discurso. Se é verdade que os governos petistas aumentaram o aporte de recursos no desenvolvimento da indústria de defesa, por outro lado, provavelmente atraídos justamente pela ampliação do orçamento estatal, grupos estrangeiros vêm devorando as empresas brasileiras do setor bem antes da Operação Lava-Jato, sem que a esquerda nem ao menos tenha se dado conta.

A tão criticada israelense Elbit comprou, ao longo dos governos petistas, a Ares Aeroespacial e Defesa (2010) e a Periscópio Equipamentos Optrônicos (2011), além de ter constituído uma joint-venture com a Embraer (Harpia) para fabricação de drones.  Mas as aquisições não param na Elbit. A francesa Savan, em 2012, comprou a Optovac Mecânica Optoeletrônica. Em 2011, foi a vez da  Thales adquirir a fabricante de radares Omnisys.

A maior empresa brasileira do setor de defesa, Avibras, decretou férias coletivas por alguns meses entre o final de 2014 e o início de 2015, com seus mais de 1,5 mil empregados reclamando de sucessivos atrasos nos salários. Desde então, a venda da empresa para um gigante transnacional vem sendo cogitada.

Ou seja, há elementos de sobra para comprovar que a desnacionalização do diminuto parque tecnológico brasileiro do setor de defesa começou ainda no primeiro governo Dilma. Da mesma forma que relatos da Marinha indicam que a forte diminuição do ritmo do projeto de construção de um submarino nuclear brasileiro se deveu aos cortes no orçamento promovidos ainda pela gestão Levy, do Ministério da Fazenda do segundo governo Dilma.

Mas para que a narrativa redentora do “volta Lula” faça sentido é necessário esquecer o passado e afirmar que tudo de ruim começou em abril de 2016, com o governo ilegítimo de Michel Temer.