Este segundo CD da baiana Marcia Castro é ousado, imprevisível do início ao fim. O glitter rock de Rita Lee, que dá nome ao disco (“De pés no chão”), por exemplo, transforma-se num insólito baião eletrônico, que tangencia o funk carioca e evolui até uma sessão ska. As escolhas de Márcia tendem a fugir do óbvio. Além da pouco lembrada “De pés no chão”, ela resgata relíquias de cartola (“Catedral do inferno”), Tom Zé (“Você gosta?”), do Gil “fase exílio” (“Crazy pop rock”) e dos Novos Baianos (“29 Beijos”). Esta última banda rende ainda uma inspirada releitura de “Preta, pretinha” que, acreditem, cita É o Tchan sem baixar o nível.

A crítica acima foi publicada no jornal Valor Econômico, em seu caderno cultural, na sexta-feira, dia 04 de maio. Não conheço o trabalho de Márcia Castro e não posso julgar suas qualidades artísticas, mas o trecho me pareceu um dos melhores resumos de um fenômeno que assola a música brasileira: uma mistura de pós-modernidade, comida a quilo e excesso de poder dos produtores. O resultado não poderia ser mais insosso.

Para fazer sucesso, o(a) artista precisa escolher um samba que ninguém lembra mais de um compositor famoso (Cartola, de preferência), uma música estrangeira de ritmos cult (fado e música cubana são um must!), fazer uma releitura de uma música brega, flertar com o funk (com a necessária distância que a prudência recomenda) e citar o tropicalismo. Mistura tudo com uns arranjos moderninhos e pronto, temos uma novo nome da MPB.

Este é o típico caso em que liberdade demais gerou um problema. E explico a frase aparentemente polêmica.

Cartola não fazia samba porque “escolheu” o samba. Ele não tinha essa “liberdade”, assim como Robert Johnson também não “escolheu” o blues. Eles são fruto de contextos históricos e sociais que lhes “impuseram” se expressar dessas formas.

Faço um paralelo com a culinária. A Tia Surica não faz feijoada porque é “in”, mas poderia também preparar um delicioso sushi. Na verdade, ela faz o que sabe, o que aprendeu ao longo da sua vida e que lhe surge como uma contingência. Nas minhas férias, fui a um excelente restaurante onde o dono só servia uma meia dúzia de pratos: picci (massa típica da Toscana), a famosa bisteca florentina e mais uns três ou quatro. Porque ele “só” sabe fazer isso! E faz “apenas” isso de uma forma extremamente sincera e deliciosa.

Isso não significa que não devam existir trocas culturais. Muito pelo contrário, o samba é fruto de um contexto de intenso (e desigual) intercâmbio cultural, assim como só surgiram as massas italianas porque Gengis Khan abriu um corredor de trocas comerciais e culturais entre a Europa e o extremo oriente e um certo italiano, de nome Marco Polo, chegou até a China e descobriu o macarrão (embora os italianos se recusem a aceitar o fato e citem a lasanha dos romanos como contra-prova).

O problema é que na pós-modernidade as trocas deixaram de ser contingenciais para se tornarem modismos ditados exclusivamente por regras de mercado. É o mercado que determina o valor das trocas e quanto mais pós-moderno for o produto, melhor. Assim, se surgir um restaurante que misture a feijoada da Tia Surica com o Sushi Isao, da Liberdade, tudo revestido com um delicioso cuscuz marroquino, vai fazer um baita sucesso! Isso, claro, durante uns dois anos, até ser substituído pelo restaurante que serve sopa de camarão do Alasca com lascas de trufas brancas de Alba e leite de coco tailandês. No fundo, o sabor pouco importa, desde que o resultado renda boas reportagens e qualifique os seus consumidores como pessoas antenadas com o que haveria de mais moderno.

Infelizmente, e sem querer assumir o conservadorismo estético de um Adorno, este tem sido o caminho hegemônico da dita Música Popular Brasileira nos últimos anos. O resultado, além de pobre, é muito chato!