(Republicado a partir de post do Facebook)

Demorei muito para escrever esse texto pois queria ouvir bastante e ter acesso a maior quantidade possível de argumentos. Agora, já me sinto um pouco mais confortável para expressar minha opinião.

1) Embora o tema da universalização do acesso aos cuidados de saúde seja fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, essa questão da falta de médicos não era central na pauta das “ruas”. E foi o próprio governo quem anunciou a “importação de médicos” como fazendo parte do pacote de respostas às manifestações de julho.

2) É evidente que a saúde brasileira tem sérios problemas e que esses problemas não serão resolvidos apenas como mais médicos. É preciso saneamento básico, alimentação decente (especialmente na primeira infância) e várias outras questões que, somadas, constituem o que podemos chamar de “qualidade de vida”. Uma vida sem qualidade será uma vida doente.

3) Mesmo se enfocarmos apenas a questão do combate à doenças, ter mais médicos não é suficiente, embora seja importante. É preciso ter acesso a postos de saúde e hospitais devidamente preparados e equipados, dispor de remédios e resolver os crônicos problemas de gestão do SUS.

4) Pelo que foi dito até aqui, há uma boa chance desse debate ser usado pelo governo para acobertar a crise endêmica do sistema público de saúde no Brasil, que não se resolverá apenas com mais médicos.

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5) Em que pese tudo o que eu disse acima, é fato que é melhor ter um médico do que não ter médico algum. E é fato também que muitos municípios brasileiros não possuem médico algum porque não houve candidato interessado em trabalhar naquele local.

6) Dizer isso não significa crucificar quem não aceitou trabalhar nesses lugares. De fato, é compreensível que não se queira trabalhar num posto de saúde sem as mínimas condições de funcionamento e numa cidade onde será praticamente impossível levar a sua família para morar (não há escolas para os filhos, opções de lazer, acesso à Internet, nada…).

7) Por outro lado, mesmo sabendo que a importação de médicos não vai resolver todo o problema da saúde brasileira, por que ser contra importar médicos que queiram trabalhar nesses lugares onde os médicos brasileiros não quiseram? Mesmo sem posto de saúde ou hospital decentes, sem medicamentos e sem os equipamentos necessários, a vida dessas pessoas não estará melhor com um médico do que sem médico algum?

8) Se os médicos estrangeiros aceitarem passar por um processo de validação de seus diplomas e vierem trabalhar exclusivamente nas áreas onde os médicos brasileiros não aceitaram, por que não? Alguém poderia me oferecer um argumento contra a vinda desses médicos e que fizesse sentido para o morador desses lugares que receberão os tais médicos?

9) Que fique claro, também, que a defesa da importação de médicos não significa abandonar outras pautas na saúde, como a melhoraria da formação de nossos médicos (que hoje é bastante precária), melhores salários, postos de saúde e hospitais devidamente equipados, acesso à medicamentos, etc. Não há qualquer motivo para acreditar que uma questão impede as demais.

10) Alegar que “antes” da importação de médicos poderiam ser adotadas outras medidas pode fazer todo sentido do ponto de vista metodológico, mas é uma posição praticamente impossível de ser sustentada perante os moradores de lugares onde não há médico algum disponível.

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11) Por fim, um juízo de valor: é impressionante o corporativismo dos médicos. Com a tranquilidade de quem sempre foi contra o corporativismo dos jornalistas (minha categoria), confesso-me impressionado com a posição dos médicos (generalizando, claro). A sensação que tenho é que o corporativismo de médicos e advogados ainda faz parte da nefasta herança do Brasil colonial, onde os “coronéis” mandavam seus filhos para Coimbra com o objetivo de fazê-los se tornar “doutores”.