Hafez Al-Assad entrou para o partido Baath em 1946 e se tornou presidente sírio em 1971, lá permanecendo até sua morte em 2000. Desde então, a Síria é presidida pelo seu filho, Bashar Al-Assad. O governo da família Al-Assad é mais um descendente degenerado do pan-arabismo, como foram os governos egípcio, iemenita e líbio, todos derrubados naquilo que se convencionou equivocadamente chamar de “primavera árabe”.

Embora realizando um governo laico, a família Al-Assad explorou seus vínculos étnico-religiosos com os alauítas, próximos ao ramo xiita do islamismo. Esse fato acabou gerando uma ponte com o governo xíita do Irã e com o movimento libanês xíita do Hezbollah. Ao mesmo tempo, o governo baatista da Síria cultivou relações muito próximas com a antiga União Soviética e com a atual Rússia.

Não é de estranhar, portanto, que a oposição ao governo sírio tenha contado com forte apoio norte-americano. A queda de Bashar Al-Assad representaria o fim do último aliado russo na região e a perda de um importante parceiro para o Irã e o Hezbollah. De quebra, os Estados Unidos poderiam vender a imagem de terem patrocinado o fim de uma perversa ditadura.

Mas, as coisas nunca são tão fáceis no Oriente Médio.

Aos poucos, as forças pró-ocidente vão perdendo espaço no interior da rebelião síria. Quem também percebeu uma excelente janela de oportunidades com a queda da família Al-Assad foi a sunita Al Qaeda. Ganhar o governo sírio permitiria impor uma derrota aos velhos adversários russos e aos xíitas iranianos. Nisso, Al Qaeda e os Estados Unidos desfrutam dos mesmos interesses. Mas, uma vez derrotando Bashar Al-Assad, a Al Qaeda sonha em impor um governo aliado na Síria, que possa servir de cabeça de ponte para operações em todo o Oriente Médio.

Com medo de derrotarem Bashar Al-Assad e acabarem vendo a Al Qaeda sair vitoriosa, os Estados Unidos puseram o pé no freio da ajuda às forças insurgentes. O que, aparentemente, só piorou a situação, tornando o exército rebelde ainda mais dependente da Al Qaeda. Nos últimos meses, a Síria se tornou o maior pólo de atração de combatentes sunitas pró Al Qaeda, superando o Paquistão e o Afeganistão. Jovens dos quatro cantos do planeta, muitos já experientes em combate, rumam para a Síria e engrossam as fileiras insurgentes da Al Qaeda.

Enquanto isso, a Europa não sabe o que fazer. Seus governantes morrem de medo de repetir o cenário da Líbia, quando deram armas aos rebeldes para enfrentarem as tropas de Kadafi e depois viram essas mesmas armas serem usadas contra o exército francês no Mali.

Para os Estados Unidos, e também para a vizinha Israel, não dá para voltar atrás, ainda mais agora que o governo Al-Assad usou armas químicas contra civis. Mas, prosseguir na empreitada pode significar entregar a Síria nas mãos da Al Qaeda. Assim como no Egito, a emenda pode resultar em algo muito pior do que o soneto. Derrubar uma ditadura pode ser apenas o começo dos problemas.

PS: curiosamente, os cristãos sírios lutam ao lado do governo alauíta, que teve um passado de relativa tolerância religiosa. O receio dos cristãos sírios é terminar nas mãos de um governo sunita religioso, apoiado pela Al Qaeda.

PS: no meio de tudo estão os curdos sírios, opositores do governo de Bashar Al-Assad, mas que também se preocupam tanto com a Al-Qaeda quanto com a oposição pró-ocidente, também fortemente apoiada pela Turquia, histórica adversária do surgimento de um curdistão.