Podemos dizer que o governo dos Estados Unidos passa atualmente por sua terceira fundação. E todas ocorreram em torno da disputa entre diferentes concepções de Estado. Repetidamente a visão de um Estado mais forte terminou por ganhar.

Quando da fundação dos Estados Unidos, no final do século XVIII, tivemos a disputa entre federalistas e anti-federalistas (ou, talvez fosse mais correto dizer, confederativas). Mesmo entre federalistas, havia aqueles que defendiam um Estado mais forte (Alexander Hamilton, por exemplo) e outros que pregavam maior descentralização (Thomas Jefferson).

A reposta dos Estados Unidos à crise de 1929 veio na forma de uma refundação do Estado conhecida como New Deal. Ali surgiram as agências (executivas e reguladoras) que hoje ocupam boa parte do poder executivo estadunidense. O New Deal implicou em um enorme crescimento do Estado e de suas atribuições.

Com o advento da II Guerra Mundial e da Guerra Fria o crescimento do setor de defesa externa teve um peso considerável nessa refundação do Estado.

Já a partir de Reagan (e mesmo durante o governo do democrata Bill Clinton) assistimos uma bem sucedida tentativa de desmonte do papel regulador do Estado surgido com o New Deal. Mas em paralelo iniciou-se um brutal crescimento do setor de defesa, sem precedentes mesmo durante a Guerra Fria.

Mas foi o 11 de setembro que, aproveitando o impulso do reaganismo, iniciou aquilo que podemos chamar a terceira fundação do governo dos Estados Unidos e que tem como característica central o crescimento do aparato militar para uso interno.

Talvez o cidadão comum não saiba mas os três maiores “ministérios” dos Estados Unidos, tanto em número de empregados quanto em orçamento, são Defesa, Homeland Security e Veterans Affairs. Juntos eles consomem mais da metade do orçamento federal norte-americano, ou seja, mais do que todos os outros “ministérios” somados.

A terceira fundação do governo norte-americano está baseada na ideia de que o inimigo não é mais um exército convencional e pode estar em qualquer lugar. Daí que a defesa interna passa a ter um papel destacado.

Embora ainda advoguem a herança dos “pais fundadores” o atual estágio de militarização do governo norte-americano teria chocado até mesmo um Alexander Hamilton, defensor de um Estado mais forte.

As implicações dessa militarização externa e, cada vez mais, interna do governo norte-americano ainda estão a serem descobertas. Mas a saída fascista não pode ser descartada.