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O acordo entre Estados Unidos e Irã (secundados por Rússia, China, Alemanha, França e Reino Unido) parte de um absurdo. Seis potências nucleares decidem quem pode e quem não pode ter armas nucleares. Mas, dada a dificílima correlação de forças no cenário internacional, o acordo tem aspectos positivos, sendo o principal o fim do bloqueio imposto ao Irã.

Estados Unidos

Por parte dos Estados Unidos, o fim do bloqueio e a perspectiva de avanço nas relações bilaterais com o Irã é fruto de uma parceria na construção do governo de maioria xiíta no Iraque. É óbvio que tal governo tem inúmeros problemas e é digno de uma série de críticas, mas concretamente foi ali que os dois países começaram a atuar conjuntamente.

Reflete também a perda relativa de importância do Oriente Médio na política norte-americana. E isso ocorre por dois motivos. Primeiro, porque o boom da produção de petróleo a partir do gás de xisto levou a perspectiva de que, em poucos anos, os Estados Unidos se torne auto-suficiente em petróleo, permitindo-o intervir menos no Oriente Médio para garantir remessas constantes de suprimento. Segundo, porque progressivamente os interesses norte-americanos convergem para uma contenção da expansão militar chinesa no leste asiático. E os Estados Unidos demonstram dificuldades para manter tantos teatros de operação ao mesmo tempo.

Além do fato óbvio de que a sociedade iraniana pode ser um bom lugar para fazer negócios, com um regime estável, uma população jovem e relativamente escolarizada para os padrões da região.

Mas, em larga medida, o acordo se deve a uma lenta inflexão nas relações entre Estados Unidos e Arábia Saudita, inimiga mortal do Irã e até aqui a principal aliada norte-americana na região. É mais do que sabido que o wahabismo saudita faz jogo duplo, ao se aliar aos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, dar suporte material e intelectual à expansão do fundamentalismo sunita. Ao mesmo tempo, o aumento da produção de petróleo por parte da Arábia Saudita parte da aposta de que uma queda nos preços tornará inviável economicamente a produção norte-americana baseada no fracking. Ou seja, aos poucos os interesses dos dois países, antes completamente alinhados, vão não apenas se afastando, mas entrando em rota de colisão. Nesse sentido, colocar algumas maçãs em outro cesto pode ser uma decisão inteligente para a política dos Estados Unidos.

Irã

Para o Irã, trata-se de mais um round na luta interna entre reformistas e radicais que perpassa o regime praticamente desde a revolução de 1979. Essa luta já abateu os reformistas Ali Montazeri (um advogado de direitos humanos que, nos primeiros anos da revolução, disputava em importância com o próprio Khomeini) e Mohammad Khatami (presidente entre 1997 e 2005). Mas, o bloqueio econômico e a enorme insatisfação popular parecem ter debilitado os conservadores, que tiveram que ceder poder para a atuação do atual presidente Hassan Rohani (ex-integrante do governo de Khatami). Em que pese o fato de que a palavra final continua cabendo ao aiatolá Ali Khamenei, os reformistas nunca estiveram tão fortes internamente.

Parlamentos

Resta agora saber como se portarão os dois parlamentos quanto a ratificação, ou não, do acordo. Vale lembrar que republicanos e conservadores controlam, respectivamente, os parlamentos dos Estados Unidos e do Irã.

Rússia e China

Ainda não é possível dimensionar o papel que Rússia e China tiveram no acordo final, mas, embora disponham de influências semelhantes, suas trajetórias são opostas. A Rússia é uma potência em declínio (apenas seu poder nuclear lhe garante assento nesse tipo de negociação), cujo único aliado convicto na região (Síria) vive um cenário de sangrenta guerra civil.

Já a China é uma potência em expansão, que progressivamente vai passando a ter influência em outras regiões para além de suas fronteiras. O projeto de construção de porta-aviões permitirá, em alguns anos, que a China se torne uma potência militar global, capaz de deslocar suas forças pelo globo. Na história da influência mundial da China em questões geoestratégicas de outros países, esse é apenas o começo.

Alemanha, França e Reino Unido estavam ali apenas de claque norte-americana.

Israel e Arábia Saudita

Não há dúvida de que os dois grandes perdores com esse acordo são Arabia Saudita e Israel.

Os sauditas parecem estar dispostos a jogar esse jogo de dualidades, embora não se saiba como reagirão ao crescimento das relações comerciais entre seu maior aliado e seu maior inimigo.

Já Israel fará de tudo para que o Congresso norte-americano, de maioria republicana, não ratique esse acordo. E não se pode descartar a hipótese de que, depois do acordo assinado, Israel encontre novas formas de criar conflitos entre Estados Unidos e Irã. O governo israelense retira sua força da manutenção de um constante estado de pânico por parte dos judeus. Portanto, para Netanyahu, quanto pior… melhor.