A gravação da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado deixa um enorme legado de lições a serem aprendidas, que requerem a capacidade de ir além da torcida de futebol a que foi reduzida a análise política. Trata-se de uma aula sobre a política nacional e sua complexidade.

Algumas lições são bem óbvias, mas não deixam de ser interessantes, justamente por terem sido ditas por um ator relevante.

1) O STF faz política no varejo. Isso implica em uma total desmoralização de nossa suprema corte. Ao que parece, contudo, Teori Zavascki foge à regra e se mantém distante do varejo político. E sua indicação é criticada como sendo de um “burocrata”, ou seja, de alguém de fora do jogo político.

2) Os militares estão sendo informados e, mesmo à distância, monitoram a situação. Sinceramente, não acho que estivesse na agenda deles qualquer tipo de intervenção. Mas os políticos gostam de mantê-los por perto e eles, claro, não recusam a deferência.

3) Os tucanos foram secundários nesse processo e perderam a capacidade de liderar a direita. E entraram nessa não apenas para tirar o PT do governo como para evitar que as investigações chegassem neles.

4) Aécio tem um telhado de vidro gigantesco que o impede de ser um candidato de direita realmente competitivo.

5) Renan odeia Cunha.

6) Renan não confia em Temer.

7) As delações das empreiteiras são “seletivas” (sic).

Mas há lições não tão óbvias assim e essas são as mais interessantes.

8) Segundo Jucá, os grandes nomes da política terão dificuldade em 2018. Se ele tiver razão, a porta está aberta para um aventureiro.

9) Eduardo Cunha era o boi de piranha necessário para passar a impressão de que o objetivo não era tirar o PT do governo.

10) A julgar pela avaliação de Jucá, Eduardo Cunha está liquidado. Nesse particular permito-me discordar do ministro do Planejamento. Sua influência permanece no governo Temer e apenas a possibilidade dele abrir a boca já o torna uma bomba relógio a ser evitada.

11) Ainda segundo a interpretação de Jucá, Lula perdeu sua capacidade de interlocução com os setores empresariais e políticos. Esse é um dado interessante que desmitifica a idéia do que seria um governo Lula em 2018. É fato que Lula tem uma enorme capacidade de articulação, mas a extensão dessa capacidade estava diretamente relacionada ao sucesso de seu governo, o que, por sua vez, dependia dos ventos da economia internacional. Ou seja, a direita e o empresariado não aderiram à Lula, mas aceitaram uma aliança tática enquanto foi necessário. E agora simplesmente Lula não é mais necessário.

12) Jucá também acha possível que Lula participe de um grande acordo para livrar a cara de todos. Um acordo que passe pelo impeachment, é bom frisar.

13) Um dado interessante dessa conversa é que não há menção à interesses empresariais, nacionais ou estrangeiros. Isso não significa, obviamente, que o impeachment não atendeu a interesses da grande burguesia nacional e transnacional. Mas revela que a política tem seus ritmos próprios e uma relativa (!) autonomia frente às questões econômicas. É claro que se houvesse contradição entre os interesses de Jucá e sua quadrilha e aqueles do grande capital, ao final estes últimos iriam imperar. Mas isso não impede que os políticos tenham sua agenda e, principalmente, seu tempo próprios.

14) É óbvio que a Procuradoria Geral da República (PGR) teve papel fundamental no impeachment ao não revelar essa gravação antes da votação.

Por fim, a conversa deixa algumas dúvidas que ainda demandam mais análise.

15) A julgar pelo medo de ambos, a Operação Lava Jato fugiu do controle e ganhou vida própria. Por isso, Sérgio Moro continua sendo um personagem que carece de uma avaliação mais acurada, para além das mitologias simplificadoras: a serviço de tucanos; a serviço do grande capital; um justiceiro implacável.

16) Por que, somente agora, a PGR resolve divulgar essa gravação? Qual seu interesse? E Por que através da Folha de São Paulo? Dada a ligação umbilical da Folha com José Serra, seria possível ver aí a marca do tucano? Por que? E por que agora?