Hoje em dia é possível ler várias críticas ao atual modelo de consumo: como os produtos eletrônicos são feitos com trabalho semi-escravo para abater custos, como o consumismo produz poluição e lixo além daquilo que o planeta consegue absorver, etc, etc. Mas, ao mesmo tempo, somos bombardeados com altas doses de publicidade que nos diz que chegou a hora de jogar algo fora para adquirir o novo, que seu aparelho, embora esteja funcionando perfeitamente e atenda as suas demandas, não passa de uma velharia imprestável.

Em breve toda essa máquina de propaganda está direcionada a convencer-nos a comprar TVs de 4k, ou seja, quatro vezes mais pixels que a atual alta resolução de 1k (ou 1080p). Nossos caríssimos aparelhos de LED subitamente parecerão carroças e, enfim, terá chegado a hora de fazer uma nova compra a prazo, em 12 parcelas, supostamente sem juros.

Mas, será mesmo que o 4k é um avanço para o consumidor? E quem realmente se beneficiará com essa mudança?

Fabricantes de aparelhos

O mercado de fabricantes de TV opera com baixas margens de lucro. Isso significa que conseguirão sobreviver apenas aquelas empresas que conseguirem vender uma quantidade enorme de aparelhos, em escala planetária. Recentemente a holandesa Phillips resolveu deixar o mercado de TVs e arrendou sua marca para a mesma empresa chinesa que também fabrica monitores da marca AOC. A japonesa Sharp luta para não falir. E o mercado é cada vez mais dominado pelas sul-coreanas Samsung e LG, com japoneses e chineses correndo por fora.

Em um mercado onde é necessário vender muito para não desaparecer, faz todo sentido criar sempre novas demandas e encurtar os ciclos tecnológicos.  A esse fenômeno os engenheiros dão o nome de “obsolescência programada”. Assim, jogue fora seu LCD por um plasma novíssimo, depois uma tela de LED, OLED… É nesse contexto que surgem as TVs de 4k. O problema é que um usuário comum não perceberá nenhuma diferença entre o atual 1k e o 4k em TVs com menos de 65 polegadas. E quantas pessoas poderão comprar TVs desse tamanho? Aos demais sobrará a possibilidade de dizer para os amigos que em sua sala agora repousa uma caríssima TV 4k de 40 polegadas e exclamar “veja a diferença”. E quem vai reconhecer que não vê diferença alguma?

Radiodifusores

Atualmente, nenhuma emissora de TV transmite realmente em 1080p. Embora façam propaganda da “alta definição”, os radiodifusores utilizam definições menores, como 720p e 180i. Alta definição de verdade apenas nos discos de blu-ray. Mas, agora as emissoras falam em passar direto para o 4k. Um dos principais motivos não tem relação alguma com o tele-espectador. Ocorre que os radiodifusores lutam para não perder parte do espectro eletromagnético atualmente alocado para o UHF. Eles sabem que, com as novas tecnologias de compressão de vídeo, ficará cada vez mais difícil justificar que precisam de tanto espaço para a TV aberta. No momento, por exemplo, o governo estuda realocar até 18 canais do UHF para a banda larga do 4G.

A ultra definição do 4k pode ser, então, a desculpa que os radiodifusores necessitam para não abrir mão de mais espectro. E espectro é como terra: depois que se tem, mesmo que não sirva para nada, ninguém quer abrir mão de uma fatia.

Sendo assim, os consumidores serão chamados a gastar altas somas de dinheiro em novos aparelhos onde, na maioria dos casos, eles não perceberão qualquer melhora de verdade, para benefício do modelo de negócio dos fabricantes de TVs e dos radiodifusores. Além, é claro, de toda uma gama ancilar de negócios, como revistas e sites especializados, lojas de eletrodomésticos, fabricantes de componentes, etc.