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Desde 2012 o conflito na Síria é chamado de guerra de proxies. O exército sírio, a tal oposição não fundamentalista (que rapidamente deixou de existir), a Al Nusra (franquia síria da Al Qaeda), ISIS. Todos (exceto os curdos) pareciam estar lutando no lugar de outros interesses mais poderosos como Turquia, Arábia Saudita, Irã, Rússia e Estados Unidos. Pois, fatos recentes demonstram que alguns desses grandes interessados na disputa síria estão sendo chamados ao centro do ringue.

O risco de uma queda do governo Assad obrigou o envolvimento da Rússia (interessada em manter seu único aliado na região, que ainda lhe fornece sua única base militar no Mediterrâneo), do Irã e do Hezbollah (metidos numa disputa bem maior entre xítas e sunitas). A recente morte do brigadeiro general Hossein Hamedani, nas batalhas que se travam em torno do controle de Aleppo, demonstram o tamanho do interesse iraniano na síria. E, ao que tudo indica, a presença das forças iranianas só deve aumentar nos próximos meses.

Já os Estados Unidos vivem um dilema. Não dispõem de recursos para uma terceira incursão terrestre, para além do Afeganistão e do Iraque, mas sabem que essa não será uma guerra a ser vencida apenas com a aviação. E não possuem de um aliado natural em solo, tendo apenas uma aproximação tática com as forças curdas.

Os atentados de Paris trarão, por sua vez, a aviação francesa e inglesa para o conflito na Síria. Sem poder decidir a guerra e vivendo o desafio de se tornarem cada vez mais potências secundárias, ambos os países estarão expostos a ataques em seus próprios territórios.

As sucessivas derrotas do ISIS deixaram a Turquia em estado de alerta, com risco de ver cair Jarabulus, o último dos principais pontos de passagem do ISIS para o território turco. Por ali entram víveres, armas e militantes para o grupo fundamentalista. Se a queda de Jarabulus é ruim para o ISIS pode ser ainda pior para a Turquia, que verá centenas de quilômetros de sua fronteira controlados pelos curdos sírios do YPG, aliados diretos do partido curdo turco, o PKK. O que hoje é uma fronteira totalmente porosa entre o governo turco e o ISIS poderá vir a ser o mesmo entre o YPG e o PKK.

A derrubada do SU-24 russo demonstra o desespero da Turquia com a estratégia russa de bombardear os oleodutos piratas que escoam a produção de petróleo do ISIS para a Turquia. Sem essa fonte de recursos, o ISIS terá cada vez mais dificuldade em atrair mercenários, por exemplo, do Cáucaso.

A retaliação russa, porém, cria uma nova situação na região. Com a crise na Ucrânia, a Rússia havia desistido de construir o gasoduto South Stream, que passaria pelo Mar Negro até entrar em território búlgaro e terminar em duas pontas, uma na Itália e outra na Áustria. A Rússia passou a apostar no Turkish Stream, que faria o gás atravessar a Turquia. Obviamente, as chances de tal gasoduto ser construído nos próximos anos é bem pequena, o que coloca um sério problema para o escoamento do gás russo, hoje sua maior e mais estratégica fonte de divisas.

Mas, ninguém joga tão bem esse jogo de proxies quanto os sauditas e seus pares nos Emirados Árabes, Qatar e Kwait. São os maiores aliados ocidentais na região e financiam (monetária e ideologicamente) as forças fundamentalistas do ISIS e da Al Nusra. E isso sem que precisem estar presentes diretamente. Mas, também aqui há riscos. Uma vitória definitiva do governo Assad pode formar um arco xíita que comece na Síria, passe pelo Iraque e termine no Irã. Ao mesmo tempo, a depender do próximo governo norte-americano, uma maior proximidade entre Estados Unidos e Irã pode significar uma mudança da correlação de forças no Oriente Médio.

Agora, fica cada vez mais claro que qualquer desdobramento na região terá consequências planetárias. Como sempre, aliás.