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É público e notório que temos uma atrofia no setor de serviços ligados à indústria (pesquisa, design, informática, telecomunicações, etc) e na indústria de transformação. Exceto pela Embraer, os nossos “campeões nacionais” (Petrobras, Vale, Friboi, JBS, Fibria, etc) são sempre ligados à extração de matérias-primas. Infelizmente, os debates sobre os motivos por detrás dessa atrofia estão sempre vinculados à questões conjunturais (câmbio, por exemplo) ou mesmo de maior profundidade (questões tributárias, de infra-estrutura e de educação), mas que parecem incapazes de explicar porque, com uma economia do porte da brasileira, chegamos nesse estado de coisas. Por exemplo, por que não fomos capazes de resolver nossos problemas tributários e de infra-estrutura para desenvolver uma indústria e um setor de serviços mais fortes e dinâmicos?

Ruy Mauro Marini, um sociólogo fundamental para entender o Brasil, procura analisar a formação histórica de nossa burguesia e como ainda hoje sofremos as conseqüências desse processo histórico. Trata-se de uma burguesia colonial, que vê o Brasil como um local de onde se obtém recursos para serem investidos no consumo em outros lugares. Por isso, nosso burguesia foi incapaz de propor um projeto de desenvolvimento capitalista nacional, se portando como mera representante local do capitalismo transnacional.

Mas, o que o Bradesco (que está fechando a compra da filial brasileira do HSBC) e o Itaú têm a ver com isso?

A mesma burguesia nacional que teria sido incapaz de gestar uma política industrial que fosse além das commodities, logrou construir dois gigantes do setor bancário, que praticamente impediram (com a exceção do Santander) a entrada de bancos estrangeiros no varejo brasileiro. E não teve nenhum pudor em defender a forte presença do Estado, tanto através do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal quanto mediante o farto crédito do BNDES.

A tese que estou propondo para o debate, portanto, é que a debilidade da indústria e do setor de serviços no Brasil não se deve a uma falha ou a falta de algum elemento qualquer que nos impediu de realizar tais proezas. A falta de infra-estrutura para a produção, a debilidade de nossa educação ou os problemas tributários são conseqüências e não a causa. Trata-se, na verdade, de um projeto deliberado de nossa burguesia, completamente coerente com o papel que ela se propõe a desempenhar no atual contexto de uma economia-mundo.