Tão logo o trabalho, em sua forma imediata, cesse de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser sua medida e, portanto, o valor de troca (deixa de ser a medida) do valor de uso. O plus trabalho da massa deixa de ser a condição para o desenvolvimento da riqueza social, assim como o não-trabalho de uns poucos deixa de sê-lo para o desenvolvimento dos poderes gerais do intelecto humano.” (MARX, Karl. IN: Grundrisse)

Marx acreditava, acertadamente, que o conhecimento tecnológico, tornado força produtiva, faria o processo de produção se desvincular do processo de trabalho. O que o marxismo não foi capaz de perceber é que esta tarefa histórica seria levada a cabo pelo próprio capitalismo e não pelo socialismo. Ao invés de uma sociedade baseada no ócio criativo, a crise do valor-trabalho gerou a mais brutal forma de exclusão social (o antigo proletário não é nem mais capaz de vender sua força de trabalho afim de que lhe expropriem a mais-valia).

Ora, congelando o tipo de trabalho que o professor Marcos Dantas chama corretamente de sintático (e dispensada a energia humana) restou a uma parcela da população o trabalho dito semântico, que o maquinário é incapaz de produzir. A este trabalho Dantas dá o nome de “capital-informação” e que se coloca no mesmo lugar do capital-trabalho da primeira e mesmo da segunda revolução industrial. A produção de riquezas, portanto, deixa de ter uma relação direta com o tempo de trabalho que custa à sua produção.

A informação (o bem simbólico, imaterial) apresenta, contudo, algumas dificuldades para a sua apreensão capitalística.

Em primeiro lugar, a informação separa o valor esperado de seu próprio conteúdo. A compra da informação deve ser feita sem que se conheça o seu conteúdo, uma vez que o simples conhecimento “realiza” o conteúdo. Como o valor da informação é valor esperado, sua materialização na forma de dado suprime a incerteza, logo o seu próprio valor, ao suprimir o tempo de espera. O consumismo torna-se uma estratégia fundamental para a sobrevivência da circulação no interior do mercado, pois é preciso comprar pela mera expectativa. O valor é extraído de um eterno circular tautológico que faz da informação nova uma sempre-necessidade.

Em segundo lugar, a informação é um produto divisível infinitamente. Se eu tenho uma informação e a passo para terceiros, eu continuo com ela. A informação tem custo marginal tendente a zero. A decorrência óbvia, e com a qual o capitalismo se debate atualmente, é a chamada “pirataria”: uma informação replicada ao infinito, com custo desprezível. Uma das saídas encontradas foi cobrar pelo custo subsidiário, como, por exemplo, o custo do suporte de transmissão (o que a Internet está liquidando). Ou, então, impor barreiras ao acesso do bem, na medida em que maior possa ser o benefício social do seu valor, ou seja: na medida em que mais extensivo possa ser o interesse social pela sua reprodução, naturalmente a custo zero. A saída encontrada pelo capitalismo foi, então, tornar a informação um bem artificialmente escasso.

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Mas, também é verdade que boa parte da produção ainda é de bem “físicos” (embora cada vez mais carregados do que Marx chama de trabalho congelado). Vistos como mercadorias, porém, necessitam, em sua produção, de um consumo de energia humana tão pequeno que podem ser tidos como mercadorias-virtuais.

“A conseqüência lógica é o capital financeiro romper todo o vínculo com o sistema industrial, cujo futuro virtual ele deixa de representar, favorecendo dali em diante apenas a sua própria virtualidade futura. Este novo estágio de virtualização à segunda potência ensejou, por sua vez, resultados decisivos. Se, entre 1910 e 1980, o centro do capitalismo deslocou-se dos cartéis industriais para o sistema bancário, a partir de então ele desloca-se dos bancos comerciais para os grandes fundos de investimento. Agora, não se trata mais de prolongar a realidade industrial da criação industrial de valor. Só na aparência externa ainda estamos às voltas com uma antecipação virtual de êxitos industriais futuros. (…) Com a virtualização de segunda ordem, os fundos transnacionais não se ligam mais às rendas industriais, mas a virtualização de primeira ordem. Em outras palavras, trata-se da capitalização das ‘expectativas de expectativas’, sem nenhum contato com a realidade industrial.” (KURZ, Robert. A virtualização da economia – mercados financeiros transnacionais e a crise da regulação. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 23/06/1999.)