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De forma alguma esse comentário serve para justificar o massacre de palestinos perpetrado por Israel. Um crime contra a humanidade não empalidece, justifica ou substitui outro crime contra a humanidade. Mas, é fato que parece haver um interesse seletivo. A guerra civil da Síria, logo ali ao lado, tem matado muito mais civis, inclusive mulheres e crianças, do que o atual ataque criminoso de Israel à Gaza, mas não desperta o mesmo interesse da opinião pública, inclusive de setores progressistas.

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Ao invés de uma comparação descabida com o nazismo, se houver um correlato histórico esse se dá com a política do apartheid sul-africano, onde uma maioria invasora confinou, de forma violenta e em pequenas partes do território, a população autóctone. Como, aliás, denunciou o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter em seu livro “Palestine: peace not apartheid”.

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Até o surgimento do sionismo, a convivência entre muçulmanos e judeus foi de relativa paz. Os judeus dispunham do estatuto da Dhimma, concedido aos demais povos de religiões monoteístas. A exemplo do que faziam antes deles os romanos, aqueles que estavam sob a Dhimma podiam professar sua religião e, inclusive, dispor de práticas proibidas aos muçulmanos (como o consumo da carne de porco e álcool) mediante o pagamento de uma taxa e o impedimento ao proselitismo. Houve, inclusive, vários casos de judeus que assumiram posições de destaque nas sociedades muçulmanas, como o célebre Ibn Naghrillah, vizir do califado de Córdoba e seu principal general.

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Vale a pena ler “The Unspoken Alliance: Israel’s Secret Relationship with Apartheid South Africa

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Ambrogio Donini foi senador eleito pelo PCI, professor da Universidade de Roma e diretor da Fundação Antonio Gramsci. Mas foi, também, um importante pesquisador sobre o cristianismo.  Em seu clássico “História do cristianismo: das origens a Justiniano” (publicado pela portuguesa Edições 70), ele demonstra como, a partir da hegemonia de Paulo sobre o pensamento cristão, prevaleceu a tese de que era importante se diferenciar os elementos judaicos e tentar um movimento de conversão dos povos que habitavam o Império Romano. É então que surge o movimento “católico” (que significa universal). Ora, para converter romanos era fundamental evitar a tese de que foram os próprios romanos que mataram Jesus. Daí que surge a farsa de que o governador romano da Judéia teria “lavado as mãos” no julgamento de Jesus, cabendo a sua condenação aos próprios judeus. É óbvio que não seria correto condenar os primeiros cristãos por serem antissemitas, mas tal visão do julgamento de Jesus, se facilitou o trabalho de conversão dentro do Império Romano, abriu as portas para o surgimento do antissemitismo no seio do cristianismo. Não deixa de ser curioso, portanto, o fato de que cada vez mais o fundamentalismo cristão se torna o maior aliado do Estado de Israel no cenário internacional. Logo esse fundamentalismo cristão que algumas décadas atrás flertava com o antissemitismo nazista.

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Fica cada vez mais claro que o establishment do Estado de Israel, do Likud ao Partido Trabalhista, passando pelo Kadima e os partidos religiosos, não possui nenhuma visão de longo prazo para o conflito com os palestinos. Matar todos os palestinos está fora de questão (inclusive a taxa de natalidade entre palestinos é maior do que entre judeus). Expulsá-los todos também não seria possível. No outro extremo não se vislumbra qualquer hipótese de negociação para a criação de um Estado da Palestina e muito menos para o surgimento de um Estado único, que abrigasse palestinos e judeus. E também é evidente que, especialmente com a força das “redes sociais”, Israel vem perdendo a batalha da opinião pública internacional, forçando, inclusive, uma ligeira inflexão de veículos da grande imprensa que tradicionalmente apoiavam Israel. Realmente é lamentável que nenhuma força política de Israel consiga oferecer uma visão de médio-longo prazo para o problema palestino e o risco dessa tática sem estratégia é acabar reforçando o ressurgimento do antissemitismo.