Mudança na Síria pode exportar o conflito entre Al Qaeda e xiítas para todo o Oriente Médio.

Ao invés do que muitos imaginaram, a chamada “primavera árabe” só fez cair os remanescentes do nasserismo, que se degradaram em ditaduras laicas, muitas delas com fortes ligações com potências ocidentais, como o Egito, Líbia, Tunísia e Iêmen. Na maior parte dos casos, a substituição das antigas ditaduras corruptas trouxe ao poder versões “moderadas” do fundamentalismo islâmico, como a Irmandade Muçulmana no Egito (posteriormente retirada do poder por um golpe militar) e o Ennahda na Tunísia. Já a Líbia (um país, como o Iraque, construído a partir de profundas divisões geográficas e culturais) vive uma intensa disputa entre diferentes facções do fundamentalismo.

Pois, a Síria caminhava para se tornar uma nova Líbia a partir da queda da ditadura da família Assad. De um lado, o Irã e o Hezbollah, interessados em manter no poder seus aliados alauitas. De outro lado, a Al Qaeda, provavelmente com apoio da Arábia Saudita.

Preocupados com tais desdobramentos, Estados Unidos e seus aliados europeus resolveram diminuir o apoio à oposição síria, o que terminou por garantir que qualquer futuro no país passará necessariamente por uma negociação com a família Assad.

Mas, talvez o pior já tenha acontecido. A partir da Líbia e, especialmente, da Síria, o confronto entre sunitas e xiitas radicais tende a se intensificar ainda mais e se espalhar por toda a região. Por detrás desse conflito, estão os interesses conflitantes das duas grandes potências da região: a Arábia Saudita (cujo governo professa um tipo de extremismo sunita conhecido como wahhabismo, que está na origem tanto da Irmandade Muçulmana quanto da Al Qaeda) e o Irã (principal patrocinador do Hezbollah libanês e, curiosamente, do sunita Hamas da Palestina).

A guerra na Síria demonstrou que a Arábia Saudita (maior aliada norte-americana na região) estreitou seus laços com parte da Al Qaeda e o recente atentado no Líbano, em pleno território controlado pelo Hezbollah, demonstra que partiram para a ofensiva.

O recrudescimento das rivalidades entre Irã e Arábia Saudita (e seus respectivos aliados) ocorre justamente no momento em que, por conta das suas enormes reservas de gás de xisto, os Estados Unidos demonstram cada vez menos interesse pelo Oriente Médio (em que pese o constante e intenso lobby sionista, que sabe que o futuro de Israel depende do futuro norte-americano).

Como reagirá o novo e moderado governo iraniano? Qual o potencial de disseminação deste conflito? Qual a real extensão da aliança entre Arábia Saudita e Al Qaeda?