Pela primeira vez nos últimos 13 anos, a balança comercial brasileira fechou com deficit em 2014. Exportamos US$ 225,1 bilhões e importamos US$ 229 bilhões. Ou seja, saldo negativo de US$ 3,9 bilhões. E por que isso ocorreu?

Pauta de importação

Segundo o David Kupfer, professor da UFRJ, em texto publicado hoje no jornal Valor Econômico, nossas importações de combustíveis tiveram deficit de US$ 24 bilhões, máquinas e aparelhos elétricos e eletrônicos ficaram com US$ 23 bilhões negativos, máquinas e equipamentos mecânicos com US$ 19 bilhões, veículos automotores com US$ 9,5 bilhões, fertilizantes com US$ 8 bilhões e químicos orgânicos com US$ 8 bilhões.

Cabem aqui três comentários.

Como o leitor pode perceber, nosso déficit é gigantesco em setores intensivos em tecnologia. Quanto mais tecnológico for o setor, maior o nosso déficit.

Em parte nosso déficit se deve aos insumos que necessitamos para movimentar nosso setor primário, como fertilizantes, químicos orgânicos, veículos automotores e equipamentos. Ou seja, se nossa agropecuária cresce, paradoxalmente aumenta também a demanda por importações.

Por fim, a situação só não foi pior porque a economia em franco desaquecimento demandou uma quantidade menor de produtos importados. Em relação à 2013, importamos US$ 10,6 bilhões ao menos. Isso significa que se a economia voltar a crescer, nossa balança comercial tende a piorar.

Pauta de exportações

Já os principais itens de nossa pauta de exportações foram minérios (US$ 27 bilhões), oleaginosas (US$ 23 bilhões), carnes (US$ 15 bilhões), açúcar (US$ 9,5 bilhões), algodão (US$ 7 bilhões), café (US$ 6,5 bilhões) e ferro e aço (US$ 6,2 bilhões).

Novamente, cabem dois comentários.

Como se pode perceber, trata-se de uma pauta exportadora de produtos primários ou de baixíssima industrialização.

Para piorar, são justamente esses preços que entraram em declínio nos últimos anos, especialmente a partir da desaceleração da China. Em 2014 exportamos US$ 16,9 bilhões a menos do que em 2013.

Futuro

Fica evidente que vivemos, desde Collor, um lento processo de desindustrialização do país, cuja economia está se reprimarizando depois do surto de industrialização ocorrido entre o final da II Guerra Mundial e o começo dos anos 80. A diferença é que os primeiros anos petistas viveram um cenário incomum, de altíssima valorização de produtos primários, as commodities. Isso permitiu ao governo produzir um inédito cenário de ganha-ganha, onde as camadas mais pobres conseguiram ascender na pirâmide econômica sem afetar os privilégios das camadas mais altas.

Mas, esse cenário atípico desapareceu depois de 2008 e voltamos a viver um contexto onde a hegemonia do comércio internacional pertence aos países que detém as principais tecnologias e esse grupo definitivamente não inclui o Brasil.

O mais preocupante é que o governo não dispõe de políticas estratégicas para enfrentar essa situação e também não parece muito preocupado com o fato, já que escolheu para ministro da Indústria e Comércio Exterior um sujeito ligado à produção de cana-de-açúcar e cuja família conseguiu a proeza de falir um banco.

PS: não fazem parte desses dados as remessas de divisas para o exterior feita pelas filiais das multinacionais que operam no Brasil. Nesse caso, o déficit seria ainda maior, já que boa parte das principais empresas que atuam no Brasil é estrangeira, o que implica no envio de lucros ao exterior.