O jornal O Globo, no dia 31 de agosto, publicou editorial (veja aqui) em que supostamente reconheceria que seu apoio ao golpe militar de 1964 foi um erro. O editorial, contudo, é escrito para vender a idéia de que havia um risco à democracia vindo do governo João Goulart e que o apoio ao golpe teria sido bem intencionado, embora equivocado. Motivou-o a defesa da democracia!

O editorial se concentra no golpe de 31 de março de 1964, mas “esquece” os 21 anos seguintes. O editorial não menciona que as Organizações Globo apoiaram não o golpe, mas o todo o regime militar, o que inclui o AI-5, a tortura e inúmeras outras atrocidades. Mas, principalmente, o editorial não menciona que não haveria a Globo que conhecemos hoje sem o apoio recebido pela ditadura, que, por exemplo, fechou os olhos ao dinheiro ilegal da norte-americana Time-Life, subsidiou o uso do satélite pela emissora e usou seus bancos para apoiá-la.

Ou seja, o editorial de O Globo não tem nenhum valor histórico, porque fala de algo que simplesmente não ocorreu. Nesse sentido, é uma obra de ficção e de má qualidade literária. Por outro lado, esse mesmo editorial tem enorme importância para entendermos o futuro das comunicações no Brasil.

A existência desse editorial tem uma motivação conjuntural. Impossível negar que ele chega no contexto das grandes manifestações de junho e julho, quando a Globo foi um dos alvos principais. Mas, há, também, motivações de mais longo prazo. No mundo inteiro a chamada grande imprensa começa a conviver com um cenário onde ela não mais possui o virtual monopólio na construção das grandes narrativas sociais. Nesse sentido, o Mídia Ninja é apenas o mais novo exemplo deste fenômeno de longo alcance.

De outro lado, as Organizações Globo atuaram durante muito tempo para manter a desproporcional hegemonia da TV aberta na mídia brasileira. Mas, esse cenário está mudando e seu fim, nos próximos cinco a dez anos, é inevitável. O modelo de produção da TV Globo, um dos últimos studio system do planeta, depende muito dessa concentração de audiência. A Globo sabe que enfrentará um enorme desafio para sobreviver em um cenário de audiência fragmentada.

Diante disso, a Globo busca modernizar e reposicionar sua marca. Assim como investe vigorosamente na TV paga e inicia tímidos namoros com o vídeo por demanda. Ela sabe que precisa se reinventar e que o mito de poder e status da Vênus Platinada terá pouca serventia no futuro. Por isso, esse editorial fala mais do futuro do que passado. Indica que a Globo busca se reposicionar. E indica, também, que, se continua difícil, a luta contra esse obscuro oligopólio nunca foi tão possível.

O outrora imbatível golias parece estar sentindo o peso dos novos tempos. Às fundas, companheiros!