No Brasil, muito se comenta sobre a desindustralização iniciada no início dos anos 90, acelerada nos anos tucanos e mantida nos governos petistas. Assim, a economia brasileira estaria cada vez mais centrada na produção agropecuária e de minérios, em produtos de baixa transformação (como aço) e em serviços de baixa qualificação.

Mas, uma questão que pouco se discute é que tipo de industrialização o país tem perseguido nessas décadas. Foi o governo Collor que criou o mecanismo chamado Processo Produtivo Básico (PPB), através do qual empresas estrangeiras ganham incentivos fiscais para manterem uma parte da produção do Brasil. Ocorre que essa parte é sempre muito pequena e periférica e quase nunca envolve a transferência de tecnologias. Assim, essas empresas estrangeiras importam seus produtos na forma de kits completos (CKDs) ou semi-completos (SKDs) e fazem apenas a montagem no Brasil. Com isso, embora usufruam de incentivos fiscais, tais empresas geram poucos empregos e ainda por cima de baixa qualificação.

Para piorar, essas “montadoras” são altamente dependentes dos humores do mercado externo. Basta que a conjuntura mude para que uma fábrica seja desmontada ou reduzida no Brasil e remontada em outro lugar. Por “conjuntura” entenda-se fatores negativos para o país (a confusa carga tributária, infra-estrutura de transportes, burocracia, etc), mas também aspectos positivos (aumento da remuneração da força de trabalho, leis ambientais mais rigorosas, regulação da concorrência, etc) e a variação cambial.

Celulares

A fabricação de celulares no Brasil é a prova cabal do fracasso deste tipo de política. Das 15 empresas que montam celulares no país, apenas uma (Positivo) é brasileira. Mas, telas, chips, memórias flash e quase tudo o que vai dentro desses aparelhos (inclusive os softwares) é importado. Apenas em componentes eletro-eletrônicos (sem contar royalties) o país importou, em 2013, quase US$ 25 bilhões e exportou pouco mais de US$ 3 bilhões.

O problema é que faz cinco anos o governo brasileiro anunciava publicamente que o país se tornaria um exportador de telefones, graças a instalação de fábricas estrangeiras. De fato, durante um tempo isso foi verdade. Em 2008, o Brasil exportou 22,5 milhões de aparelhos. Mas, a conjuntura mudou os planos dos principais fabricantes mundiais, que passaram a não se interessar mais em ter o Brasil como plataforma exportadora. Sem grandes montadoras nacionais e sem conseguir produzir os componentes desses aparelhos, coube ao governo apenas assistir de camarote a mudança de estratégia dessas transnacionais, enquanto os sonhos se evaporavam.

Em 2013, o Brasil exportou apenas 2 milhões de aparelhos e importou outros 11 milhões, além dos 50 milhões de aparelhos produzidos no país, com quase 100% de componentes importados. Ao manter intocada a essência da política industrial criada por Collor, o Brasil é praticamente irrelevante na produção de bens e serviços de alto valor agregado. Enquanto a China tiver fôlego para comprar nossas matérias-primas, a bonança continua.

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