Gentrificação é um anglicismo originado de uma expressão por sua vez herdada da palavra “genterise”, do francês arcaico. Gentrificação é a política pública de “revitalização” de determinadas áreas urbanas pobres e abandonadas. Com isso, os antigos moradores terminam expulsos (judicial ou economicamente) e tais áreas passam a ser ocupadas por residências e um comércio voltados para as classes A e B. Em geral, tais políticas se originam do esgotamento das áreas nobres de uma dada cidade que, então, precisam avançar sobre porções urbanas até então negligenciadas. Isso é claramente o que vem acontecendo, por exemplo, em determinadas partes da cidade do Rio de Janeiro, com a desculpa da “modernização” para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, para profunda alegria de construtoras e dos setores imobiliário e hoteleiro.

Mas, há uma variável curiosa do processo de gentrificação, fruto do turismo transfronteiras surgido após a II Guerra Mundial e que vem se acentuando cada vez mais nas últimas décadas. Trata-se do surgimento de verdadeiras “cidades cenográficas”, onde o tecido urbano original foi praticamente substituído por uma vida fake, que muitas vezes busca emular um passado mítico. Nessas cidades tudo é voltado para o turista e os moradores locais parecem representar uma paródia de si mesmos, cujo único objetivo é criar a sensação de férias buscada por essas hordas de turistas.

Isso é exatamente o que vem ocorrendo em Habana Vieja, a parte mais antiga da cidade de Havana. Ao conhecer essa experiência cubana, fiquei pensando em outras onde já estive e foi fácil pensar em Oia (fala-se “ía”) na ilha grega de Santorini, no bairro parisiense de Montmartre, no centro histórico de Praga, em Bruges, Lucca e no nosso Pelourinho. Mas, o melhor exemplo que conheço é Veneza, antes uma importante cidade italiana e hoje uma “cidade cenográfica” onde os moradores da vizinha Mestre vão trabalhar e eventualmente simular, para os turistas, “típicas” situações de Veneza, como passeios românticos em gôndolas. Caminhar poe essas cidades é, ao mesmo tempo, um prazer e uma sensação de viver uma farsa consumista destinada a agradar pessoas que passaram meses trabalhando e que agora só querem poder viver essa realidade fake sem serem atormentadas por qualquer tipo de reflexão.