Google é o fabricante do sistema operacional que roda na maioria dos smartphones do mundo. Em 2011, a empresa comprou a divisão de “mobilidade” da Motorola. Desde o início, porém, ficou claro que seu interesse eram as patentes da Motorola (uma pioneira na telefonia celular). O Google buscava se defender da Apple na guerra de patentes que ainda segue em curso.

Logo depois a empresa se desfez da divisão de cable modems e set top box da Motorola, vendida para a Arris. Mas, manteve a divisão de celulares. Contudo, era claro o desconforto do Google em ter que carregar a Motorola. Por um lado, ele não se dedicava o suficiente para fazer com que a empresa desse lucro. Por outro lado, os outros fabricantes de celulares com Android reclamavam que, com a Motorola, o Google era, ao mesmo tempo, fornecedor e concorrente.

Portanto, a venda da divisão de celulares da Motorola não surpreende. Assim como também não surpreende o fato do Google ter ficado com todas as patentes da Motorola.

Mas, por que a Lenovo?

A Lenovo faz parte de um esforço da China em construir marcas fortes no setor de eletrônicos, fugindo do estigma de só fazer produtos de baixa qualidade. Trata-se de um movimento que décadas atrás foi levado a cabo pelo Japão e, mais recentemente, pela Coréia do Sul, criando marcas como Sony, Panasonic, Sharp, Samsung e LG, por exemplo. Em 2005, a Lenovo comprou a divisão de PCs da IBM e atualmente é a maior fabricante mundial de micro-computadores (um segmento cujas vendas decrescem). Na semana passada, a Lenovo anunciou que estava comprando a divisão de pequenos servidores (de arquitetura x86) da mesma IBM. A Lenovo está em pleno processo de reestruturação e passará a ter quatro divisões: empresas, PCs, “nuvem” e… aparelhos móveis”! Nessa última categoria entram celulares e tablets. Por isso, faz todo sentido que a Lenovo tenha ido às compras para fortalecer sua divisão de mobilidade.

(No Brasil a Lenovo comprou recentemente a CCE.)

Para o Google também faz todo sentido vender justamente para a Lenovo. Ocorre que o Google anda preocupado com o crescimento da Samsung. Uma Samsung grande é ótima para ajudar a vender mais aparelhos com Android. Mas, uma Samsung grande demais pode ser um problema e terminar invertendo a relação de força que o Google mantém com os fabricantes de celulares. Por isso, cai como uma luva o surgimento de uma outra grande empresa que adote o Android e consiga disputar mercado com a Samsung. De fato, ainda há muito chão para a Lenovo percorrer até encostar na Samsung, mas o Google tratou de dar uma forcinha.

Veja abaixo o ranking dos maiores fabricantes de celulares, com números do quatro trimestre de 2013:

  • Samsung (Coréia do Sul) 27%
  • Nokia/Microsoft (Estados Unidos) 15%
  • Apple (Estados Unidos) 7%
  • LG (Coréia do Sul) 4%
  • ZTE (China) 4%
  • Lenovo + Motorola (China) 4%
  • Huawei (China) 3%
  • TCL (China) 3%
  • Yuloong (China) 2%
  • Sony (Japão) 2%
  • Blackberry (Canadá) 2%
  • HTC (Taiwan) 2%

Sobre esse ranking, cabem alguns comentários.

Blackberry é uma empresa em franca decadência e dificilmente sobreviverá a 2014. Muito provavelmente será comprada por alguém, de olho em suas patentes.

Embora os números da Nokia (vendida para a Microsoft) ainda sejam expressivos, boa parte dessas vendas se limita a aparelhos de baixo custo, que não se conectam à Internet. Apesar de todo o esforço, o Windows Phone não emplacou.

Exceto por Apple e Nokia/Microsoft, esse mercado está dividido entre China, Coréia do Sul e Japão. A Europa saiu do jogo. Para o Brasil não muda nada. Continuamos meros consumidores…