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É como na historieta envolvendo o sapo e o escorpião. Por mais que tente, o escorpião não consegue resistir e termina matando o sapo, mesmo que isso significa a sua própria morte.

O governo turco de Tayyip Erdogan vem dando livre passagem (e talvez até algum apoio logístico) aos militantes do ISIS, na esperança que eles possam, ao mesmo tempo, derrubar o regime sírio da família Assad e impedir o surgimento de um curdistão na Síria e no Iraque que termine reivindicando a sua porção turca.

Com livre passagem pela Turquia, o ISIS resolveu promover um atentado suicida na cidade turca de Suruç, próximo a fronteira com a Síria, que acabou matando pelo menos 32 pessoas. Na maioria, os mortos são jovens que se preparavam para cruzar a fronteira e ir prestar solidariedade aos moradores de Kobani, antes uma cidade com 400 mil habitantes e hoje a capital de Rojava (a região curda da Síria onde nasce uma das mais importantes experiências democráticas da atualidade).

Como pano de fundo desse atentando está o crescimento do partido HDP, que reúne curdos e turcos numa agenda de esquerda com temas como direitos das mulheres, dos homossexuais e ambientais Trata-se de uma gigantesca novidade no cenário turco, que obteve 13% dos votos e 80 deputados nas eleições gerais deste ano, e que incomoda tanto o governo turco quanto o ISIS. A aliança que começa a nascer entre o HDP e o governo de Rojava faz tremer os radicais dos dois lados da fronteira, até porque, pela primeira vez, reúne a esquerda turca e curda sob uma mesma pauta.

Mas, Erdogan flerta com o perigo ao “convidar” o ISIS para dentro da Turquia. É verdade que eles podem ajuda a reprimir o trânsito dos militantes de esquerda na fronteira. Mas, depois, não vai adiantar nada reclamar quando o escorpião insistir em lhe picar.