É verdade que o governo Dilma foi truculento e pouquíssimo democrático. Em uníssono com parte da militância petista, e para júbilo da grande imprensa, o governo Dilma estimulou um tipo de senso comum contra os servidores públicos que chegou a lembrar o governo FHC. Seríamos todos vagabundos, pouco produtivos e marajás. Com isso, joga-se os trabalhadores da iniciativa privada contra os servidores públicos.

Também é verdade que, pelo menos no caso das agências reguladoras, que conheço mais de perto, a pauta central nem era aumento salarial (embora nosso último tenha ocorrido em 2008). Trata-se de reivindicar o pagamento da Gratificação por Qualificação (GQ), prevista em lei aprovada em 2004 e até hoje jamais paga. Assim como a remuneração por subsídio, que acaba com o monte de penduricalhos de nosso salário, que tanto prejuízo nos causa, por exemplo, na aposentadoria.

Dito isso, confesso que estou revendo a forma de minha inserção em greves futuras. Claro que não pretendo furar greve. Isso jamais! Mas, meu apoio tende a ser cada vez mais crítico.

Na greve fomos à população pedir seu apoio para a nossa justa luta. Explicamos que temos direitos e que devolvemos nossos salários à sociedade na forma do compromisso com eficiência, transparência e justiça. Mas, em que pese honrosas exceções, isso não é verdade!

Nossa pauta é meramente salarial. É isso que mobiliza os servidores. O resto é apenas um bom discurso em busca de apoio na sociedade. A verdade é que as agências reguladoras, em sua grande maioria, são absurdamente mal geridas, com um grau de ineficiência que chega a assustar. São pouquíssimo transparentes e, em muitos casos, trabalha-se conscientemente (inclusive usando jargões técnicos e procedimentos burocráticos) para evitar uma maior participação da sociedade civil. Há diferentes graus de captura, que vão da captura ideológica à casos bem mais graves. Na prática, as agências reguladoras atuam como mediadoras de disputas internas entre frações do capital. E, em sua grande maioria, os servidores das agências reguladoras, apesar de estáveis, são autores, co-autores ou cúmplices de boa parte dessas práticas.

Embora jamais vá furar uma greve, meu apoio militante e ativo, numa nova greve dos servidores públicos, e particularmente das agências reguladoras, só ocorrerá se formos capazes de discutir que agências reguladoras queremos para a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Que nossa ação através do movimento sindical seja capaz de denunciar a má gestão, a pouca transparência e as práticas capturadas.

Por exemplo, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para unificar o funcionamento das agências reguladoras. Que tipo de propostas os servidores das agências têm para esse projeto de lei? O que queremos, além de bons e dignos salários?

Sem ter uma resposta para essas questões, corremos o risco de ficar reféns de uma pauta meramente salarial. E esquecemos de dar o retorno necessário àqueles que, em última instância, pagam nossos salários. Mas, depois vamos lá, pedir apoio…