No próximo dia 31 de dezembro, a Força Aérea Brasileira (FAB) vai aposentar sua frota de 10 Mirage 2000c e 2 Mirage 2000b, atualmente lotados na base aérea de Anápolis. Estes aviões foram comprados de segunda mão da França e estão no limite de sua vida útil. Com isso, a FAB passará a contar apenas com 46 F-5 lotados nas bases de Canoas (RS), Rio de Janeiro e Manaus (AM). Estas aeronaves têm, em média, 35 anos de vida, mas foram “modernizadas” nos últimos anos. Além dos subsônicos ítalo-brasileiros AMX, que recém começaram a ser “modernizados”.

Ontem, o governo anunciou o fim da novela FX-2 e a compra de 36 aeronaves suecas Gripen NG. Dados os valores e a sensibilidade do tema, faz sentido que a escolha tenha envolvido aspectos específicos dos diversos modelos concorrentes, mas também questões geopolíticas e acordos off-set (principalmente aqueles que contemplam transferência de tecnologias). Portanto, muitos dos critérios empregados na escolha jamais serão de domínio público.

Na concorrência estavam diversas aeronaves de quarta geração, uma vez que o único caça de quinta geração atualmente existente, o F-22, só está disponível para a força aérea norte-americana.

Em um primeiro momento a compra do F-35 foi descartada por conta de seu alto valor e dúvidas quanto ao futuro do desenvolvimento do avião.

Depois, foi a vez de descartarem o Eurofighter Typhonn (Alemanha, Reino Unido, Itália e Espanha) e o russo SU-35. No caso da aeronave pan-européia teria pesado o alto valor e a dificuldade de negociar contra-partidas com um grupo grande de países. Já a eliminação do SU-35 foi bem mais difícil. A aeronave agradava aos pilotos brasileiros e a Rússia teria oferecido a chance do Brasil integrar o consórcio russo-indiano responsável por construir o caça de quinta geração PAK-FA. Supostamente o SU-35 foi eliminado porque a indústria bélica russa vem enfrentando problemas com o pós-venda de seus equipamentos. Há quem diga, porém, que os Estados Unidos teriam pressionado para que o Brasil não adquirisse aeronaves russas (como fez a Venezuela ao comprar 24 aviões SU-30, em 2006).

Ao final, restaram o norte-americano F-18 Hornet, o francês Rafale e o sueco Gripen NG.

A escolha de um avião estadunidense sempre foi um problema, porque qualquer transferência de tecnologia depende de autorização do Congresso daquele país. Por outro lado, se houve alguma chance do Brasil escolher o F-18, o affair Snowden acabou com ela.

Contra o francês Rafale (que chegou a ser anunciado por Lula como o vencedor da disputa) teria pesado o alto valor de compra e, principalmente, de manutenção.

Ao final, o Brasil escolheu uma excelente aeronave, com boas perspectivas de evolução, com o menor custo de compra e manutenção entre os concorrentes e mais versátil. Por exemplo, se houver embargo de mísseis norte-americanos, ele pode ser adaptado para o uso de armas de outros fornecedores.

Este blog, contudo, sempre defendeu que o principal critério deveria ser o de transferência de tecnologia. Uma aeronave de quarta geração possui um conjunto impressionante de tecnologias embarcadas, que podem não apenas contribuir para o fortalecimento da Embraer (parceira natural do projeto) como fortalecer, também, várias outras empresas nacionais do setor. E, como já é de conhecimento geral, as tecnologias empregadas no setor de defesa, mais cedo ou mais tarde acabam sendo apropriadas no mundo civil. Os suecos, por exemplo, são famosos pela qualidade de sua tecnologia de radares e contra-radares.

Então, se junto com a escolha do Gripen NG, o governo for capaz de fazer um bom acordo de transferência de tecnologia e, o maior desafio, montar uma sólida política industrial derivada dessa escolha, poderemos ter importantes consequências para a pesquisa e desenvolvimento do setor aeronáutico brasileiro.

Resta saber, contudo, como o Brasil vai lidar com o fato de que várias tecnologias embarcadas no Gripen são norte-americanas (como o motor GE). Podem existir restrições contratuais que impeçam os suecos de realizar essa transferência de tecnologias e aí toda a lógica da escolha viria por terra.