Cresci aprendendo que a fração menchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo não mais era do que um bando de traidores da revolução russa. Mas, há anos eu já tinha uma pulga atrás da orelha, desde que a falência da União Soviética me levou a participar de um debate sobre os motivos do seu fracasso. Minha conclusão, naquele momento ainda sem muitos elementos teóricos, foi de que seria um erro afirmar que o stalinismo brotou do nada, representando uma ruptura total com o passado bolchevique. Se, por um lado, é claro que a ascensão de Stalin indica uma ruptura, por outro lado os elementos que propiciaram esta ascensão já deviam existir, mesmo que latentes, na tradição bolchevique.

Por este caminho, era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, eu indagasse sobre os demais socialistas russos, não bolcheviques. O que eles teriam a dizer? E finalmente chego à conclusão de que se eu vivesse na Rússia, em 1917, provavelmente teria mais pontos de contato com Martov do que com Lenin.

Sim, eu sei que a visão de Martov peca por um certo determinismo de esperar a revolução burguesa primeiro para somente então propor o caminho ao socialismo. Também sei que a postura de Lenin de interpretar o real para mudá-lo, de não ficar preso a dogmas, é muito mais próxima da filosofia da práxis. Mas, é inegável que Martov produziu os mais sólidos alertas para o risco da degeneração do processo revolucionário levado a cabo por uma vanguarda. E, ao mesmo tempo, indicou uma via possível para se pensar revolução e democracia de formas simbióticas e unívocas.

Antes de tudo, porém, cabe lembrar que no interior do menchevismo, assim como do bolchevismo, havia diferentes tendências e visões do processo histórico e Martov pode, sem sobra de dúvida, ser colocado na esquerda do menchvismo. Já em 1905, Martov defendia a instituição de “auto-governos revolucionários”. Ao contrário de outros mencheviques, Martov criticou qualquer tentativa de “coordenação” com o “movimento de oposição democrática liderado pelo liberalismo”. E, em 1917, exilado na Suíça, tentou a todo custo evitar que os mencheviques aderissem ao governo de coalizão surgido em fevereiro. Em julho do mesmo ano, Martov afirmava que “agora só nos cabe uma decisão. (…) A história nos impõe tomar o poder em nossas mãos (…), passando por cima da burguesia liberal”.

Mesmo após a revolução de outubro, Martov permanece nos soviets até ser expulso, primeiro dos conselhos, depois da própria Rússia. Portanto, não estamos diante de um reformista como a história parece insistir em nos contar.

Em 1920, no último congresso menchevique realizado na Rússia, Martov explicitava seu apoio à ditadura do proletariado, mas afirmava, segundo Israel Getzler, que “excetuando o nome, a ditadura do proletariado não tem nada em comum com a ditadura de uma pessoa, de uma oligarquia (…) ou de uma ‘minoria revolucionária consciente’ que busque impor sua vontade a uma ‘maioria não consciente’, transformando esta última num ‘objeto passivo de experimentação social’. A ditadura do proletariado, segundo estes menchviques, exclui ‘resolutamente’ qualquer forma de ‘terrorismo político’. Não só é compatível com os ‘princípios democráticos’, como também fornece ‘pela primeira vez’ a possibilidade de ‘realizar completa e coerentemente’ a ‘soberania do povo, da base até a cúpula’.”

Foi apenas com o massacre de Kronstadt que Martov rompeu de vez com a revolução russa. E foi Martov, provavelmente, o primeiro socialista a alertar que a opção jacobina de uma ditadura da vanguarda, supostamente em nome da maioria proletária, tenderia a degenerar até a ditadura de um único homem.

Foi com Martov, então, que eu percebi, pela primeira vez, que era possível fazer não apenas a crítica do stalinismo, mas também do bolchevismo de Lenin e Trótski, sem deixar o campo da esquerda revolucionária.

Sugestão de bibliografia:

  • Coleção “História do Marxismo”, organizado por Eric Hobsbawn e editado no Brasil pela Paz e Terra. Em especial os volumes 5, 6 e 7.
  • “A revolução russa de Lenin a Stalin (1917-1929)”, de E. H. Carr e editado no Brasil pela Zahar (esgotado).