O cenário do mercado de comunicação tem mudado muito velozmente. Por isso, é preciso estar preparado para rever nossas certezas.

Uma delas dizia respeito ao desaparecimento das fronteiras entre conteúdo, telecomunicações e eletrônica. Essa tese advoga a criação de gigantes que ocupariam todos esses espaços ao mesmo tempo. Mas, será mesmo que isso está ocorrendo?

Infra-estrutura e conteúdo

No Brasil, o caso mais famoso é o da Globo, que tentou se expandir para as telecomunicações (Vicom, Teletrim, NET Serviços, Maxitel), o provimento de acesso à Internet (Globo.com) e até a fabricação de equipamentos de rede (NEC do Brasil). O resultado foi um processo de inadimplência que se arrastou por anos e obrigou a Globo a vender uma série de ativos.

Nos Estados Unidos, o principal exemplo vem da Time-Warner, que adquiriu a AOL naquele que foi considerado um dos piores negócios do capitalismo norte-americano. Em 2009, a Time Warner se separou da Time Warner Cable, segunda maior operadora de TV a cabo dos Estados Unidos.

Na França, a Vivendi colocou à venda sua operação de telecomunicações no Marrocos, tentou vender a brasileira GVT (sem conseguir um comprador pelo preço pedido) e estuda separar-se da SFR, que opera telefonia celular e acesso à Internet. Enquanto se desfaz de ativos de telecomunicações, a Vivendi reforça seus investimentos no Canal+ (principal grupo de TV francês) e na gravadora Universal.

Mas, há casos que vão no sentido contrário. A Comcast (maior operadora de TV a cabo do mundo) é proprietária da Universal Studios e da rede de TVs e rádios NBC. E a Sony, uma gigante do setor eletrônico, é dona da Columbia Pictures.

Há, ainda, casos mais complexos como o Google, que domina a publicidade na Internet a ponto de ameaçar as agências de publicidade tradicionais, comprou a Motorola, fabrica um sistema operacional que vem ganhando cada vez mais mercado (Android) e agora começa a se aventurar na coprodução de vídeos profissionais através do Youtube.

Quanto mais mídia, melhor?

Outra certeza falava das sinergias entre os diferentes segmentos de mídia. Sendo assim, sempre haveria ganhos na fusão entre um jornal e um editora ou entre uma TV e um estúdio, por exemplo. Durante muito tempo essa foi uma máxima quase inquestionável, mas que vem sendo posta em dúvida por recentes movimentos do mercado.

Após uma sucessão de escândalos, o magnata da mídia Rupert Murdoch separou em duas a sua News Corporation. A porção que manteve o nome original ficou com suas dezenas de jornais (entre eles o The Wall Stree Journal) e a editora Harper Collins (uma das quatro maiores do mundo). Já os estúdios e canais de TV da Fox e a líder em TV paga no Reino Unido, BSkyB, passam a integrar uma renovada 21st Century Fox.

A própria Vivendi acaba de vender a Activision Blizzard, segunda maior produtora de games do planeta (atrás apenas da Nintendo). Também a combalida Sony tem sofrido pressão de alguns investidores para separar-se da Columbia Pictures.

Financeirização

Em um primeiro momento, o cenário atual parece desmitificar a idéia de que teríamos grupos de comunicação cada vez maiores, controlados por versões contemporâneas do cidadão Kane. Uma análise superficial parece indicar que, ao contrário, a tendência preponderante é a da criação de empresas menores, com foco mais concentrado em um único segmento de mídia.

Um olhar mais atento, contudo, talvez demonstrasse que a escolha por ganhos de escala ou por foco concentrado será cada vez mais uma opção tomada caso a caso. Isso porque, no fundo, o que estamos vendo não é uma desconcentração do setor, mas a definitiva financeirização dos grupos de mídia, controlados por fundos de investimento e bancos que adotam diferentes estratégias visando a remuneração do capital investido. Nesse sentido, Ruper Murdoch é uma espécie em extinção, sendo aos poucos substituído por executivos anônimos que representam, por exemplo, fundos de venture capital.

A crítica contra a concentração terá que ficar mais sofisticada para apurar essa relação cada vez mais estreita entre o setor financeiro e os grupos de mídia, sejam eles gigantes ou de nicho. Sob o risco de olharmos a consequência e perdermos de vista a causa.

Voltaremos ao tema dessa estreita relação em breve…