Este blog já analisou várias vezes como a Globo tem se mostrado o único grande grupo de comunicação brasileiro que goza de boa saúde financeira e tem estratégia capaz de enfrentar o cenário de convergência e globalização. Mas, nada garante um futuro feliz para os Marinho. Pelo contrário, será imenso o desafio de manter o foco na galinha dos ovos de ouro (a TV aberta do grupo) ao mesmo tempo em que se prepara para viver num mundo onde a radiodifusão terá cada vez menos importância.

Pois, se a Globo possui estrategistas (e certamente ela os possui), eles devem estar atentos ao que acontece nesse estranho mês de novembro de 2013.

Vejamos:

CENA 1. Edição 774 da revista Carta Capital tem, na sua capa, matéria sobre a contratação da alemã Gfk, quinta maior empresa de pesquisas do planeta, por parte das quatro principais adversárias da TV Globo: Record, SBT, Bandeirantes e Rede TV. As duas últimas, mais frágeis na guerra contra os Marinho, não confirmam a informação, mas SBT e Record assumem a negociação. Seria uma forma de questionar a histórica as medições do Ibope, que têm garantido à Globo índices que alguns acreditam estarem inflacionados. No fundo, essa contratação tem potencial para questionar a quantidade de verbas publicitárias investidas na Globo. Anunciantes de peso acompanham essa operação com bastante interesse.

CENA 2. a lei 12.876 revogou a lei 11.662/2008 e fez valer a vontade do povo do Acre, expressa em referendo popular de 2010. Com isso, o Acre e parte do Estado do Amazonas passam a ter um novo fuso horário, com duas horas de diferença em relação à Brasília. A decisão contraria um intenso lobby da Globo, que terá que adaptar sua programação nessa região para continuar cumprindo a classificação indicativa da programação, determinada pelo Ministério da Justiça. Para a Globo, seria melhor que toda uma população tivesse que viver em um fuso horário diferente apenas para não ter que adaptar sua grade de programação.

CENA 3. Mesmo com forte lobby contrário dos radiodifusores, a Anatel publicou a resolução 625 que retira nada menos que 18 canais do UHF. A partir do ano que vem (depois de realizado novo leilão para o 4G), os canais 52 a 69 simplesmente desaparecerão do UHF e passarão a ser usados para a banda larga móvel. Com isso, a TV aberta digital ficará limitada entre os canais 14 e 51, já que o VHF também não será usado na TV aberta. Trata-se da primeira vez na história em que os radiodifusores tiveram que amargar uma perda de espectro e representa, também, a chegada de um novo xerife na cidade, com muito mais poder de fogo: as operadoras de telecomunicações.

CENA 4. Em horário nobre, a Globo é obrigada a transmitir um protesto dos jogadores profissionais de futebol que, no jogo entre São Paulo e Flamengo, ficaram tocando a bola de um lado para o outro, sem qualquer reação do time adversário, para desespero do juiz, da CBF e dos repórteres da Globo. A empresa, como se sabe, é muito mais do que a detentora dos direitos de transmissão e se porta, muitas vezes, como dona de fato do campeonato brasileiro. Mas, o domínio já não escapa de uma inédita crítica dos atletas, que parecem dispostos a fazer mais barulho ainda.

O mês de novembro seria coroado com a aprovação do Marco Civil da Internet sem que o lobby da Globo lograsse alterar seu artigo 15. Quem sabe?

Talvez, no futuro, os estudiosos venham a apontar esse mês como aquele onde uma longa hegemonia começou a morrer. E pelo menos o sinal amarelo já deve estar ligado no Jardim Botânico.