Atualmente assistimos a uma clara mudança no perfil das séries da TV norte-americana. Ok, continuam por lá as insuportáveis sitcoms, mas aos poucos vai surgindo uma dramaturgia mais madura, com atores consagrados (Dustin Hoffman, Nick Nolte, John Goodman, Glenn Close, Jeromy Irons, Forest Whitaker, entre outros que até alguns anos atrás jamais pensariam em trabalhar na TV), grandes diretores (Martin Scorcese, Gus Van Saint) e produções sofisticadas (algumas, inclusive, com locações em vários países). São exemplos séries como Boss (Starz), The Shield (FX), Treme, Boardwalk Empire, Luck e Game of Thrones (HBO). Mudam também a estética (com “ousadias” como planos mais lentos ou a “câmera na mão”), as temáticas e a estrutura narrativa, não havendo mais a necessidade da dicotomia “protagonista bom” e “antagonista malvado”, com personagens principais que podem ser policiais matadores, políticos corruptos, prostitutas e traficantes de drogas. A estas se somam as já consagradas séries britânicas, de canais como BBC e ITV, indicando a busca da TV por um público segmentado, de perfil mais maduro, com disposição para acompanhar tramas complexas e temáticas ousadas.

Enquanto isso o cinema de Hollywood traça uma estratégia de envolvimento sensorial do espectador, com tramas irrelevantes e atores juvenis. Assim, o destaque fica por conta de uma edição frenética, projetores de 4k (4096 x 3112 pixels), óculos 3D, telas Imax e agora 48 fps (ao contrário do tradicional 24 fps).

Parece ser um processo curiosamente inverso ao que ocorreu entre a segunda metade dos anos 60 e a década de 70, quando o crescimento da TV (com sua programação direcionada à “família”) levou o cinema norte-americano a buscar temáticas mais maduras e complexas, demonstrando mais sensibilidade para “ler” uma conjuntura que envolvia crise econômica, Guerra do Vietnã e Watergate..

Brasil

Enquanto isso, o que se vê no Brasil é justamente o contrário. Exceto por raríssimas exceções (como o núcleo de Guel Arraes, na TV Globo, que, contudo, já se petrificou em uma “fórmula padrão”), o empobrecimento da TV aberta leva de roldão o cinema, onde a presença avassaladora da Globo Filmes faz com que nossos supostos blockbusters se pareçam com uma continuação da novela do momento. E na TV paga ainda não é possível falar em modelos brasileiros, dada a incipiente produção nacional.