No começo deste século, a Globo se encontrava em maus lençóis, especialmente por conta do seu consideravel endividamento em dólar e do fim da paridade entre a moeda norte-americana e o real. Na oportunidade, a família Marinho foi obrigada a se desfazer de uma série de empreendimentos.

Foram vendidas fazendas, uma financeira (Roma), uma construtora (São Marcos) e vários outros negócios, muitos deles ligados à comunicação. A Globo deixou o controle da subsidiária da NEC no Brasil, praticamente encerrou as atividades de sua gravadora (Som Livre), fechou a distribuidora Globo Vídeo e o varejo da Globo Disk, saiu da Teletrim, da TV portuguesa SIC e da Maxitel (atualmente parte da TIM), vendeu a empresa de telecomunicações Vicom e a gráfica Globo Cochrane e liquidou o sonho de uma operadora de parques temáticos.

Na TV paga a Globo vem abandonando sua participação na Sky Brasil. Hoje possui apenas 7% das ações da empresa, com opção para deixar o negócio até 2014. A ex-empacotadora NET Brasil foi se tornando aos poucos apenas a vendedora dos canais Globosat. E na NET Serviços a Globo deixou sua posição de controladora para ter 22,7% de ações ordinárias indiretamente e mais 10,4% de participação direta em ações ON.

Audiovisual

Com isso, a empresa assume uma dupla estratégia.

De um lado, ela abandona o desejo de ser um conglomerado diversificado e, especialmente, de ter presença no setor de telecomunicações, para se concentrar na produção de conteúdo.

Mas, mais do que isso, a Globo reconhece que, na produção de conteúdo, o seu “core” se concentra no segmento audiovisual. Sendo assim, quatro empresas passam a ser fundamentais para o futuro dos Marinho: TV Globo, Globosat, Globo Filmes e Globo.com. As demais, como Editora Globo, Sistema Globo de Rádio e Infoglobo (dos jornais), ajudam, mas não determinam o futuro das Organizações Globo.

O modelo de negócios da Globo sempre esteve associado à necessidade de verticalização e controle absoluto dos meios de distribuição do seu conteúdo, mas isso pode mudar. A Globo.com é um importante portal da Internet brasileira, mas não dispõe de qualquer mecanismo de distribuição, dependendo da infra-estrutura de terceiros. E a Globo Filmes necessita das majors norte-americanas para conseguir distribuir suas produções, até mesmo no Brasil.

TV paga

A tendência é que a Globo deixe de ter qualquer participação na Sky e que a NET Brasil simplesmente desapareça. Na NET Serviços a família Marinho conseguiu negociar com o bilionário mexicano Carlos Slim para manter uma posição de gatekeeper da compra de canais, evitando a entrada de concorrentes da Globosat. Mas, não está claro ainda por quanto tempo a Globo conseguirá manter essa participação relevante na NET Serviços, já que Slim vem fechando o capital de todas as suas empresas, mantendo apenas a America Movil listada na bolsa de Nova York.

TV aberta

Resta a TV Globo, o carro-chefe dos Marinho. Na digitalização da TV aberta, a Globo conseguiu evitar a introdução do operador de rede e manteve a verticalização do segmento, controlando produção, programação e operação da infra-estrutura de transmissão.

Mas, a TV Globo sofre dois ataques.

É inevitável que a TV aberta perca influência para novas mídias, especialmente com o crescimento do número de assinantes da TV paga e dos acessos de banda larga. Por outro lado, o crescimento (ainda que lento) da Record representa um aumento da disputa dentro do próprio segmento da TV aberta.

Atualmente, a TV Globo desfruta de um acordo com as agências de publicidade que lhe permite obter um percentual da verba de publicidade maior do que o seu share de mercado. Mas, devido a concorrência com outras mídias e com a emissora da IURD, é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, os anunciantes pressionem para rever esse acordo e diversificar seus planos de mídia.

A enorme fatia do bolo publicitário permite que a Globo mantenha um esquema de produção audiovisual in-home que já não encontra paralelo em outros países, com uma estrutura hiper-concentrada e cara, o chamado studio system dos grandes galpões e carrinhos de golfe da Hollywood nos anos 40  e 50. Mas, este “modelo projac” custa muito caro e pode não ser factível a partir do momento em que as verbas de publicidade não estejam mais tão concentradas na TV aberta.

Em resumo, uma Globo menor e mais focada no audiovisual terá, em alguns anos, que enfrentar o desafio da queda de importância da TV aberta e, talvez, da impossibilidade de se manter como gatekeeper da TV paga. Neste momento, talvez não seja mais possível manter o atual modelo verticalizado de produção. E a Globo será obrigada a se reinventar. Ou pode ter o destino de marcas famosas como PamAm, Kodak, Varig e outras.

Infelizmente, não há nem vestígios de que, no Estado brasileiro, alguém esteja se preocupando com essa questão. Isso, claro, até o momento em que os Marinho resolvam cobrar nova ajuda da Viúva…