Em 1991, a Frente de Libertação Nacional (FLN) cancelou o segundo turno das eleições argelinas, quando ficou evidente que a Frente Islâmica de Salvação (FIS) ganharia o pleito. E parte expressiva dos países ocidentais apoiou o auto-golpe da FLN, mesmo sendo este um agrupamento nacionalista e anti-imperialista, que liderou a guerra de independência contra a França.

O argumento, então, versava sobre a necessidade de suprimir a eleição e suspender a democracia para evitar que o movimento islâmico chegasse ao poder e… suprimisse eleições e suspendesse a democracia. Como consequência, o país mergulhou numa guerra civil de 11 anos e mais de 200 mil mortos.

Agora, no Egito, setores militares (que estiveram no poder de forma ditatorial desde 1952 e que desde 1970 já haviam abandonado uma posição nacionalista) derrubaram o primeiro governo democraticamente eleito do país, formado pela Irmandade Muçulmana, de cunho islâmico.

Novamente, esse tipo de movimento contou com apoio das ditas democracias ocidentais e, dessa vez, também de parte expressiva da juventude que ajudou a derrubar o marechal Mubarak e até de um Prêmio Nobel da Paz (Mohamed El Baradei).

Alega-se ser necessário destituir um governo de cunho religioso, mas democraticamente eleito, para evitar que o país caia numa ditadura.

Pois, hoje, o governo laico que deseja evitar uma ditadura religiosa acaba de decretar a lei de emergência (que permite prender sem mandato, por exemplo), o toque de recolher e matou mais de 300 pessoas. Isso tudo em um único dia! Com isso, o maior país árabe se aproxima perigosamente de uma guerra civil de proporções incalculáveis, bem ao lado do barril de pólvora de Israel.

Parece que, para uma parte expressiva do ocidente (incluindo nossa grande imprensa), é melhor ter ditaduras militares laicas, que reprimam qualquer resquício de democracia e governem pelo poder das armas do que ter governos islâmicos, ainda que democraticamente eleitos, mas que tendam a instaurar, mesmo parcialmente, a sharia.

Com toda certeza, a resposta a esse paradoxo é um gigantesco desafio ao conceito de democracia. E não se trata de um debate escolástico, mas da necessidade de encontrar respostas que possam guiar o processo democrático em uma parte expressiva de nosso planeta.