É fato que a grande imprensa brasileira perdeu qualquer pudor e assumiu de vez seu perfil de classe. Casos extremos como o da revista Veja (parceria entre a família Civita e a imprensa racista sul-africana do antigo De Nationale Pers) já nem se dão mais ao trabalho de disfarçar que não fazem jornalismo.

Na tentativa de se opor à grande imprensa, muitos companheiros da blogosfera têm agido mais com a emoção do que com a razão e passam a interpretar os fatos de acordo com suas crenças, muitas vezes com o desejo de defender o governo Dilma e o PT de quaisquer ataques, vindos da direta ou da esquerda.

Ali Kamel

Um caso clássico desse jornalismo por desejo foi a interpretação de que a chegada de Patrícia Poeta à bancada do Jornal Nacional representava a saída da geladeira de seu marido, Amauri Soares, diretor de jornalismo da Globo em São Paulo quando Evandro Carlos de Andrade dirigia a Central Globo de Jornalismo, nos anos 90. Aquele foi um período em que a Globo lutava para demonstrar que seu jornalismo já não era aquele dos tempos da cobertura das Diretas Já ou da edição do debate entre Lula e Collor. Andrade foi importado de O Globo e buscou melhorar o jornalismo da emissora, nos limites do possível.

Na verdade, não era nada disso. O marido de Patrícia Poeta continua na geladeira dos Projetos e Eventos Especiais. Para piorar, a saída de Otávio Florisbal da direção da TV Globo levou para seu lugar o então chefe da Direção Geral de Jornalismo e Esportes (DGJE), Carlos Henrique Schroder. Para o lugar de Schroder na DGJE vai Ali Kamel, provavelmene a figura mais reacionária do jornalismo da TV Globo.

Dilma e os Civita

A recente recusa de Dilma em se encontrar com Roberto Civita e sua ordem para que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se retirasse de evento realizado pela Abril foi visto como uma demonstração de que o governo finalmente acordou para o tema da comunicação e resolveu enfrentar o oligopólio privado.

Doce ilusão. De fato, tratava-se apenas de uma retaliação do petismo aos Civita.

A própria Folha de São Paulo revelou que a Secretária de Comunicação concentra mais de 70% da verba publicitária da União em 10 empresas, sendo quase um terço apenas nas Organizações Globo. Enquanto isso, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), após 14 anos de atraso, divulga uma relação de bens reversíveis à União bem menor do que se esperava (R$ 17 bilhões). E este mesmo governo pressiona a favor das operadoras de telecomunicações e contra a presença do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) na fiscalização da neutralidade da rede. Nada de marco regulatório, de conferência nacional das comunicações…

A realidade pode ser dolorosa (especialmente ao reconhecer que este governo não se move um centimetro na defesa da democratização da comunicação), mas não podemos fazer o que já faz a grande imprensa, ainda que com sinal trocado. Urge que não percamos de vista a prática do jornalismo.