Nas férias encerradas ontem, pude assistir a dois shows de jazz.

O primeiro, na prestigiada Duc des Lombards, foi muito ruim. Um público amontoado, formado por senhores e senhoras aparentemente de boa situação financeira, “sofisticados”, escutando um show como quem vai a uma missa e bebendo drinks exóticos ou bons vinhos franceses. Quase dava para ouvir a respiração dos presentes, que, como quem venera um santo, idolatravam três músicos (violino, baixo acústico e guitarra) que chamavam de jazz um experimentalismo vazio e frio. Lembrei-me de um senhor contratado para várias inaugurações de lojas aqui no Rio, sempre vestido com a camisa do Brasil, fazendo embaixadinhas e equilibrando a bola em quase todas as partes imagináveis do corpo. O que eu ouvi naquela noite estava tão próximo do jazz quanto aquelas embaixadinhas estavam de uma partida de futebol.

Quanto à platéia de caucasianos, impossível não pensar num Fats Waller ou em Buddy Bolden, tocando em cabarés e outros locais de reputação pouco ilibada. Que caminhos o jazz percorreu até virar uma música de câmara…

O segundo show foi bem melhor. Na Caveau de la Huchette foi possível ouvir três bons músicos (piano, baixo acústico e bateria) acompanhando o excelente Detroit Gary Wiggins no sax tenor, criando um swing que fez metade dos presentes dançarem a noite toda.

Mas, os dois casos me levaram a pensar que talvez o jazz tenha morrido. Entenda-se por “morrer” não que o jazz não venha mais a ser executado ou até muito bem executado. “Morrer” aqui quer dizer que o jazz talvez não tenha mais o que acrescentar de novo à história da música.

Difícil imaginar que o jazz escapará de pelo menos um desses quatro destinos possíveis: ser tocado por músicos competentes, como Wiggins, mas que nada mais fazem do que recriar o que as gerações passadas já fizeram; virar “musak” (“música de elevador”); se tornar sinônimo de um experimentalismo vazio como o que ouvi do trio de Didier Lockwood no Duc des Lombards; ou, enfim, virar um espaço para bons músicos de formação erudita poderem exercitar a liberdade que não desfrutam na chamada “música clássica”.

O jazz nasceu no sul dos Estados Unidos e cresceu com a migração dos negros para as cidades do norte. Mas, o contexto histórico, social e econômico que lhe deu origem mudou significativamente. Ao mesmo tempo, o jazz passou também a ser executado em contextos bem distintos, como o europeu e japonês, por exemplo. Tenho a impressão de que o jazz deixará importantes marcas na música do século XXI, mas que seus limites foram alcançados e rompidos.

Nesse sentido, Milles Davis é, ao mesmo tempo, o jazz levado ao limite do seu contexto histórico-social e a ultrapassagem de suas fronteiras, abrindo novos caminhos possíveis, mas levando ao esgotamento da originalidade do jazz. Milles Davis estaria para o jazz como Kandinsky para a pintura: o extremo e o fim, a travessia do seu próprio Rubicão.

Será?

  • Sugestão de leitura: “História social do jazz”, de Eric Hobsbawm, publicado no Brasil pela Paz e Terra.