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Durante anos, Estados Unidos e Arábia Saudita (o único país do mundo que possui um dono, cujo nome faz parte da própria denominação desse Estado árabe) foram aliados estratégicos no intrincado tabuleiro do Oriente Médio. Mas, a atual queda dos preços do petróleo, embora não se deva apenas a isso, pode estar revelando uma mudança importante nessa relação.

Os Estados Unidos precisam da Arábia Saudita para conter outras forças no Oriente Médio e para garantir um valioso suprimento de petróleo. Ambas as necessidades, porém, podem estar mudando. E a Arábia Saudita, ao perceber essa inflexão, entra em um jogo arriscado.

Wahabismo

Dos talebãs do Afeganistão ao ISIS no Iraque e na Síria, passando pela Al Qaeda, a ideologia que serve de substrato é sempre uma variante do wahabismo, a versão saudita do fundamentalismo sunita. As madrassas wahabitas, ao longo de todo o mundo árabe, cumprem um papel importante na formação desses grupos extremistas e há forte suspeitas de que facções da família Saud não se negam a aportar recursos financeiros nos grupos jihadistas.

Durante anos os Estados Unidos não apenas fizeram vistas grossas a esse movimento como, em alguns momentos, emprestaram seu apoio (vide a relação com os talebãs nos anos 80). Mas, o 11 de setembro mudou esse cenário. Cada vez mais o terrorismo sunita passou a ser um problema para os Estados Unidos, o que detonou uma discreto deslocamento de posições entre Estados Unidos e Arábia Saudita. A gota d’água parece vir do apoio de sauditas ao ISIS.

Curioso que, nesse processo, o Irã passe a desempenhar um novo papel, como única potência da região com condições materiais e interesse político e religioso para enfrentar a Arábia Saudita. Não deveria causar estranheza, portanto, que a aliança entre Estados Unidos e Irã esteja na raiz do novo governo iraquiano. Muito provavelmente só não assistimos ainda uma detente nas relações entre os dois países por conta da pressão do lobby israelense em Washington.

Petróleo

A atual queda dos preços do petróleo tem muitos motivos e um deles, com certeza, é a nova relação que surge entre Estados Unidos e Arábia Saudita.

Os Estados Unidos foram, durante anos, vorazes importadores de petróleo e precisavam dos sauditas como fiadores de seus interesses no Oriente Médio. Mas, o uso da tecnologia de fracking mudou esse cenário, acenando com a perspectiva de auto-suficiência em alguns anos.

E é aqui que entra o jogo perigoso dos sauditas.

Em recente reunião da OPEP, em Viena, os sauditas se recusaram a concordar com uma diminuição na quantidade de petróleo atualmente produzido pelo cartel, como forma de conter a queda de preços.

Nos bastidores o que se houve é que os sauditas teriam medo de diminuírem sua produção e não serem acompanhados por outros produtores (especialmente de fora da OPEP), o que poderia fazer com que perdessem mercados. O temor faz ainda mais sentido quando se percebe que antigos fornecedores de petróleo para os Estados Unidos, como a Nigéria, começam a buscar mercado no sudeste asiático, aumentando a concorrência com os sauditas.

Mas, esse pode não ser o único motivo. O governo saudita parece apostar na queda do preço do petróleo, pelo menos enquanto suas reservas internas de dólares conseguirem suprir a diminuição nas receitas advindas da venda do óleo cru. A aposta de uma parte da família Saud (porque essa posição não é unanime no governo saudita), é de que os campos de fracking dos Estados Unidos terão dificuldade em continua rentáveis se o preço cair abaixo dos US$ 40. Enquanto que os campos maduros da Arábia Saudita poderiam suportar quedas maiores no preço do barril.

De quebra, a queda do preço do petróleo ainda teria a vantagem de afetar a Rússia (apoiadora do governo sírio que os sauditas adorariam ver cair) e o arqui-rival Irã.

Mas, trata-se de uma aposta arriscadíssima. Até quando as reservas internas de dólares serão capazes de sustentar os sauditas? Será mesmo que o fracking se torna inviável abaixo de um patamar próximo dos US$ 40? E se isso for verdade, os Estados Unidos assistirão a tudo impassíveis?

De uma forma ou de outra, esse jogo arriscado dos sauditas parece prenunciar uma mudança na correlação de forças no Oriente Médio. Israel, com certeza, observa a tudo atentamente.