O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) possui uma série de cadernos chamados “Texto para Discussão” que apresentam as contribuições de seus pesquisadores, sem que o próprio Instituto se responsabilize pela opinião emitida. Uma prática muito saudável, aliás.

O Texto para Discussão 1452, publicado em 2009, é um interessante estudo de Mansueto Almeida, com sabidas ligações com o PSDB, chamado “Desafios da real política industrial brasileira no século XXI”. Entre outras coisas, o autor discute os desafios de uma política (especialmente no segundo governo Lula) que tem usado o BNDES para criar “campeões nacionais” que posam disputar o mercado internacional. A seleção destes campeões parte das atuais empresas que já demonstram uma respeitável envergadura e que, em sua esmagadora maioria, operam com commodities. O sucesso desta politica se junta ao crescimento da demanda internacional por commodities (puxado pela China). Assim, temos um circulo virtuoso que, paradoxalmente, tem impedido o país de investir recursos em setores com alto valor agregado, grande capacidade de inovação tecnológica e mais transversais ao restante da cadeia produtiva. Nosso sucesso nos especializa cada vez mais em commodities ou em produtos de baixa intensidade tecnológica.

Este é o caso da Vale, da JBS/Friboi, da Brasil Foods, da Fíbria, da Votorantim, da CSN, da Gerdau, da Suzano e da Cosan, entre outras. Além das já famosas empreiteiras brasileiras com atuação transnacional, como Andrade Gutierrez, Camargo Correa e Odebrecht.

Como excessões temos os investimentos em média-alta tecnologia da Petrobras e da Brasken e os investimentos em alta tecnologia da Embraer e da Totvs. E não muito mais do que isso…

Sobre os riscos desta política, e de forma bem reduzida, apresento apenas alguns números levantados no estudo de Mansueto Almeida.

Em 2000 nossas exportações estavam assim divididas: commodities (37%), recursos naturais (14%), baixa intensidade tecnológica (8%), média intensidade tecnológica (18%), alta intensidade tecnológica (18%), não classificados (5%). Já em 2008 os números eram: commodities (43%), recursos naturais (7%), baixa intensidade tecnológica (9%), média intensidade tecnológica (16%), alta intensidade tecnológica (11%), não classificados (13%). Enquanto as exportações de commodities aumentaram de 37% para 43% as de alta intensidade tecnológica diminuiram de 18% para 11%.

Em 1996, o Brasil tinha um déficit de US$ 8,380 bilhões na indústria de alta intensidade tecnológica (aeronáutica e espacial, farmacêutica, informática, equipamentos de comunicação, instrumentos médicos de óptica e precisão). Este déficit aumentou para US$ 21,932 bilhões em 2008. Com o paradoxo de que quanto mais a economia do país crescer, mais vamos precisar de produtos de alta tecnologia e maior será o nosso déficit.

Por enquanto, esse problema foi disfarçado pelo nosso impressionante crescimento em produtos de baixa intensidade tecnológica (madeira e seus produtos, papel, celulose, alimentos, bebidas, tabaco, texteis, couros e calçados) e em produtos não industriais. No primeiro caso, saímos de um superávit de US$ 10,130 bilhões em 1996 para US$ 40,158 bilhões em 2008. No segundo caso, de um déficit de US$ 510 milhões para um superávit de US$ 26,040 bilhões.

Em 2007, na gestão Luciano Coutinho, um dos artífices da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) do segundo governo Lula, o BNDES fez 9,5% dos seus desembolsos para indústrias de alta tecnologia, mas 30,5% em indústrias de baixa tecnologia.

Para quem sempre achou que nosso problema foi a falta de abertura ao capital estrangeiro, um dado interessante apresentado nesse estudo, mas oriundo da UNCTAD, é aquele que mede a porcentagem do Investimento Direto Externo (IDE) em relação ao PIB dos países. Em 2007, o IDE no Japão era de 3% do PIB, na Índia de 6,7%, na China de 10%, na Coréia do Sul de 12,7% e em Taiwan de 12,9%. No Brasil, era de 24,4%. Nossa economia é, portanto, muito mais aberta ao investimento externo do que a dos tigres asiáticos.

Por fim, um dado interessante é a proporção de registro de patentes no INPI, entre residentes e não residentes no Brasil. Entre 2000 e 2005, na construção civil, 63,22% das patentes eram de residentes e 36,78% de não residentes. Entre aparelhos agrícolas e alimentares, 68,28% das patentes foram pedidas por residentes e 31,72% por não residentes. Mas, na outra ponta, as patentes de não residentes foram 97,71% em química orgânica, 93,73% em fármacos, 91,08% em biotecnologias, 87,03% em telecomunicações, 84,58% em semicondutores (chips) e 84,54% em informática.