Nestes dias, um amigo publicou no Facebook um texto que escrevi há 15 anos. A leitura dele me inspirou a escrever este post.

Há basicamente dois tipos de consumo de audiovisual: linear e não linear.

O consumo linear (radiodifusão e TV paga, por exemplo) necessita de um mediador que desempenha a atividade de programar o conteúdo, em geral na forma de “grades”: agora isso, depois aquilo… Essa atividade de programação requer um conhecimento profundo sobre gostos e hábitos e seu maior exemplo entre nós é a grade da Globo que, em determinado momento, nos anos 70 e 80, chegou a orientar a sociabilidade brasileira com seu famoso novela-novela-jornal-novela.

Já o consumo não linear confere muito maior liberdade ao usuário, que pode escolher o que e quando deseja ver um determinado conteúdo, através de streaming ou download, seja na Internet, na própria TV paga ou em mídias móveis como celulares e tablets. É o chamado vídeo por demanda. Por outro lado, o vídeo por demanda implica em muito mais trabalho por parte do usuário. Quanto maior forem os catálogos, mais trabalho para encontrar o que se deseja.

Então, estou cada vez mais convencido de que o próximo passo do vídeo por demanda, aquele que representará um verdadeiro abalo na difusão linear, depende de inteligência artificial. Com ela, através de mecanismos de busca semântica e com uma massa enorme de informações sobre os usuários, será possível prever hábitos de consumo audiovisual. Assim, um “assistente pessoal”, constantemente abastecido com nossos hábitos, poderá saber que determinada pessoa gosta de programas de comentários sobre futebol nas noites de domingo e tende a ver filmes mais leves nas sextas a noite, quando está acompanhado de sua namorada. E poderá ir além, estabelecendo padrões mais sutis que podem definir que tipos de filmes “leves” ele gosta, baseado em premissas como características de roteiro, atores, etc.

A tendência é que as obras audiovisuais sejam transmitidas com uma grande quantidade de metadados, facilitando o máximo possível a tarefa destas “assistentes pessoais”. E que, por sua vez, os próprios “assistentes” possam ir “etiquetando” as obras audiovisuais com metadados personalizados. Em alguns meses de tentativa e erro, é bem possível que o nível de acerto seja bem alto. Afinal, somos mais previsíveis do que gostamos de reconhecer…

Não tenho dúvida alguma de que Google, Facebook, Apple e Amazon (cada um destes com seus gigantescos bancos de dados sobre nossos hábitos) se preparam para dar este salto. Seus atuais projetos no setor, como a propalada AppleTV e GoogleTV. são apenas a ponta do iceberg.

Uma das questões centrais que se terá que resolver, contudo, é como conciliar esta evolução do vídeo por demanda com o inevitável declínio dos canais de programação. Ocorre que tais canais, em geral, estão nas mãos das mesmas empresas que produzem boa parte do conteúdo audiovisual. São gigantes como Time-Warner, Disney, Viacom, News, etc, que não parecem estar nem um pouco dispostas a verem surgir empresas que lhes substituirão na mediação com os usuários. Até que ponto será possível criar novos modelos de negócio que satisfaçam ambos os gigantes globais?

Neste momento, que deve ocorrer em algum instante nos próximos cinco a dez anos, veremos então a difusão linear ser seriamente abalada pelo “vídeo por demanda mediado por softwares capazes de aprender com nossos hábitos”. Esse será o momento em que a televisão começará a acabar…

PS: tal cenário trará gigantescos riscos à nossa privacidade, até porque as pessoas se verão cada vez mais tentadas a abrir mão dela em nome de maior comodidade.