De uma coisa ninguém pode ter dúvida: lá se foi o propalado sonho do governo Lula de ter uma “super-tele” brasileira para competir contra mexicanos (Embratel, Claro, NET e Star One), espanhóis (Telefonica/Vivo), italianos (TIM), franceses (GVT) e norte-americanos (tanto os da Sky quanto aqueles da Nextel). O sonho começou a ruir quando a Oi, totalmente endividada e mal administrada e com uma extensa e defasada rede, aceitou como sócia a Portugal Telecom. A operadora portuguesa foi, aos poucos, assumindo o controle da Oi, Primeiro tomou conta da área técnica e, no começo desse ano, seu presidente se tornou também presidente da OI. Agora, com a fusão entre as duas, o sonho acabou de vez.

Mas, para além dessa certeza restam algumas dúvidas.

Dinheiro público?

A forma como a operação foi desenhada é extremamente benéfica para os acionistas da Portugal Telecom que aportarão, apenas, o patrimônio da própria empresa, não precisando colocar nenhum dinheiro do bolso.  Os dois sócios brasileiros controladores da Oi também saem ganhando. A nova empresa a ser criada assumirá as dívidas atuais da OI, mas também da sua controladora, a Telemar Participações. Assim, Carlos Jereissati e a Andrade Gutierrez se livrarão de uma dívida, direta e indireta, de R$ 4,5 bilhões.

A operação só fecha se os acionistas minoritários da Oi aceitarem investir cerca de R$ 5 bilhões na empresa. E é aqui que começa o problema principal. Ninguém pode impedir investidores privados de acreditar no negócio proposto pelos controladores da Oi e da Portugal Telecom. Ocorre que os três principais acionistas minoritários da OI mexem com recursos públicos brasileiros e o passado levanta dúvidas quanto a forma como esse investimento é tratado.

Quando a empresa ainda se chamava Telemar, BNDES, Previ e Petros eram seus principais acionistas, mas, através de um acordo, abriram mão de gerir a empresa em nomes de dois sócios privados. Vale lembrar que esses dois sócios são o irmão de um senador do PSDB (Tasso Jeresissati) e o maior financiador das campanhas de Lula (Sérgio Andrade). Com a compra da Brasil Telecom pela Telemar (fazendo nascer a Oi) e com a entrada da Portugal Telecom, BNDES, Previ e Petros foram diminuindo suas participações na empresa. Até hoje não se sabe ao certo se essa diminuição implicou em algum prejuízo para os fundos de pensão de estatais e o banco de fomento público.

Agora, avalia-se no mercado que pode existir pouco interesse dos acionistas minoritários em aportar recursos. Afinal, a Oi é uma empresa com forte endividamento e uma rede defasada. E R$ 5 bilhões, sob quaisquer circunstâncias, é muito dinheiro. Se não houver suficiente interesse do mercado, BNDES, Previ e Petros entrarão para fechar a conta? Ou, ao contrário, caso não aportem recursos, a diluição de suas participações será vantajosa ou pode implicar em perdas?

Essas são questões que deveriam ser respondidas para evitar mais um negócio na história brasileira onde a iniciativa privada fica com o lucro a a Viúva paga a conta.

Sinergias

O presidente da Portugal Telecom, Zeinal Bava, tem dito que o negócio implicará em importantes sinergias que aumentarão a eficiência da empresa, permitindo-lhe pegar parte da enorme dívida. Mas, até agora não está claro qual a sinergia possível entre a Oi, a Portugal Telecom e as empresas onde esta tem participação (em alguns casos minoritária) em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Namíbia, Timor, Moçambique e Quênia (neste último, apenas as páginas amarelas). Dessas supostas sinergias depende, em grande parte, a saúde financeira da empresa.

Futuro

Desfeito o sonho de termos uma grande operadora de telecomunicações de capital nacional, resta atentar para o futuro da Oi. A empresa tem a maior rede de cabos ópticos do país e possui obrigações de universalização do telefone fixo em 26 estados brasileiros (exceto São Paulo). Mas, o tamanho de sua dívida deveria preocupar o governo. O risco é que, mais na frente, incapaz de cumprir com suas obrigações legais, a empresa acabe se escorando no Estado e o passivo, novamente, fique com a Viúva. Se levarmos em conta a forma como o governo tratou do assunto até agora, mostrando inequívoca incapacidade de alcançar seus objetivos, é bom colocar as barbas de molho.