Nas últimas três décadas, os Estados Unidos tiveram três presidentes que deixaram profundas marcas na história contemporânea. Reagan, em conjunto com Tatcher no Reino Unido, retomou a agenda neoliberal de forma a deixar com inveja seu fundador, von Hayek. Depois, Clinton ajudou a enterrar os restos mortais do New Deal, fazendo com que os Democratas assumissem um programa bem mais palatável ao eleitorado conservador. Por fim, Bush Jr. foi o fiel representante de uma nova direita que reúne fundamentalismo político e ultra-liberalismo econômico, com todas as contradições inerentes.

Comparado com os três, Obama foi o único a chegar na Casa Branca com fortes esperanças de mudança. E é de todos o único que deve sair sem conseguir deixar sua marca. Em grande medida isso se deve às injustificadas avaliações que se fizeram a seu respeito.

A direita misturava racismo e posições reacionárias para crer que um negro, de nome Barak Obama, poderia ser uma mistura de Bin Laden com Malcom X e pitadas de Karl Marx. Já a esquerda olhava para o mesmo homem negro, de nome Barak Obama, e via nisso as condições para um governo que varresse para o lixo da história os anos de Bush Jr.

Os dois lados se negaram a ver a realidade. Primeiro, ninguém chega a ser presidente dos Estados Unidos, especialmente com o modelo de colégio eleitoral, se não tiver construído profundos acordos com o establishment econômico. Segundo, Obama era um senador estreante e, exceto por um discurso empolgante na Convenção Democrata de 2004, não tinha nenhuma realização, nenhuma agenda pública. Pelo contrário, Obama construiu sua carreira política na crença de que seria sempre possível encontrar uma equação ganha-ganha, onde ninguém sairia descontente.

Um evento pequeno, mas profundamente simbólico, ilustra o que se passa na mente de Obama e o tipo de governo que ele pretendia fazer. Em 2009, no primeiro ano do mandato de Obama, Henry Louis Gates Jr. professor negro de Harvard, foi preso quando tentava arrombar a porta de sua própria casa, depois de voltar de uma viagem à China. Obama poderia ter criticado o professor, alegando que o policial estava correto ao tentar impedir um suposto roubo. Ou poderia ter defendido o professor, afirmando que nada, exceto o racismo, explicaria a violência com que a polícia o tratou. Ao invés disso, resolveu convidar o policial e o professor para tomarem uma cerveja na Casa Branca. Obama acreditava mesmo que um chopp poderia resolver a questão racial norte-americana?

Para piorar, Obama assumiu em um momento de ânimos exaltados, com a crise de 2008 no seu auge. Conservadores e progressistas cobravam mudanças e Obama insistiu em manter o presidente do Banco Central que havia sido escolhido por Bush Jr. Sua política econômica ajudou a concentrar ainda mais a riqueza, o que obviamente não é nada bom para negros e hispânicos, por exemplo.

Tendo que governar com minoria na Câmara dos Deputados, Obama tentou emplacar uma reforma do sistema de saúde que acabou sendo menor do que aquela proposta por Lyndon Johnson nos anos sessenta. Mais uma vez, conseguiu desagradar os setores reacionários (que viam uma irreal estatização do sistema de saúde) e os progressistas (desapontados diante dos sucessivos recuos do presidente).

Pois, agora Obama vive novo inferno astral, justamente quando se prepara para iniciar os dois últimos anos de seu segundo mandato e se tornar o que os norte-americanos chamam de “pato manco” .

O affair Snowden conseguiu desagradar ainda mais os setores progressistas, já decepcionados com as sucessivas mentiras pregadas pela administração Obama. As torturas em bases fora do território dos Estados Unidos permanecem. Não houve a retirada total do Afeganistão. Os presos de Guantánamo continuam todos lá. E agora sabemos que nunca antes houve um processo tão extenso de espionagem política e industrial. Acossado, Obama passa a impressão de não saber o que dizer, inclusive para “países amigos” como o Brasil.

E a suposta intervenção na Síria se tornou um momento constrangedor. Ameaçado por Putin, com medo de entregar a Síria para a Al Qaeda, correndo o risco de trazer para o debate as armas nucleares de Israel, Obama mais uma vez vacila, para desespero de conversadores e progressistas. Com seu comportamento errático e sem convicção, o presidente norte-americano joga sangue na água, atiçando os tubarões que agora sabem que podem bater porque Obama fraqueja.

Exceto por uma mudança espetacular nos próximos dois anos, Obama corre o risco de entrar para a história como o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O que, aliás, não é pouco. Mas, seria apenas isso e nada mais. O problema não estava na eleição do presidente negro, mas nos oito anos após a eleição, que foram de um vazio impressionante.