Uma coisa é certa: Jorge Mario Bergoglio pelo menos se calou diante da ditadura militar argentina. Quando comparado, por exemplo, à atitude dos brasileiros Evaristo Arns e Helder Câmara, o comportamento de Bergoglio foi, no mínimo, deplorável. Até porque, é nas adversidades que se vislumbra o verdadeiro caráter dos homens.

Mas, o fato é que a pessoa física de Jorge Mario Bergoglio praticamente deixou de existir e foi substituída pela instituição papal. Ele agora se chama Francisco e está diante de enormes desafios.

Os gestos públicos do novo papa parecem indicar uma primeira mudança em relação à Bento XVI. O papa anterior (o primeiro a se aposentar por livre e espontânea vontade) fugia da imprensa e defendia uma igreja de “puros”. Na estratégia de Bento XVI, a igreja assumiria o risco de perder os “tipo católicos”, ficando apenas com um núcleo duro de fiéis praticantes. Com Francisco, não apenas voltamos a ter um papa midiático, como foi João Paulo II, como o discurso parece ser dirigido justamente aos fiéis mais distantes do núcleo militante. Busca-se o grande público e não mais apenas os iniciados. Não está claro, porém, qual o impacto que essa postura de Francisco terá nos esforços de conversão do pentecostalismo católico (como a Renovação Carismática) e nas iniciativas midiáticas de setores da igreja (que vão de redes de televisão como Canção Nova à padres cantores).

Mas, o discurso de Francisco parece também pregar uma igreja com preocupações sociais, especialmente em relação àqueles excluídos economicamente. A grande questão que logo será respondida é o quanto essa ênfase não faz parte do esforço midiático e é para valer.

Caso seja verdadeira, uma primeira dificuldade para traduzir intenções em ações concretas estará bem ao lado de Francisco. Todos os atuais cardeias que não estão aposentados foram nomeados por João Paulo II ou por Bento XVI, ambos extremamente conservadores. Ou seja, estamos lidando com uma igreja cuja cúpula tem um perfil conservador e que  tem demonstrado inegável talento para se aproximar do poder político e econômico.

Para concretizar essa suposta opção pelos excluídos Francisco terá que remar contra a corrente vigente na igreja católica nas últimas décadas. Os dois últimos papas enfraqueceram consideravelmente o poder de atuação das comunidades eclesiais de base e das pastorais. Será preciso, portanto, enfrentar resistências e reconstruir espaços abandonados pela institucionalidade católica, como, por exemplo, as comunidades mais pobres da América Latina onde é cada vez mais raro encontrar um padre.

Outra questão ainda sem resposta é o comportamento do novo papa em relação aos novos movimentos católicos que têm eclipsado as ordens tradicionais de jesuítas, franciscanos e dominicanos. Qual a reação de Francisco diante do crescimento de movimentos conservadores como a Opus Dei, os focolares, o Caminho Neocatecumenal e a Comunhão e Libertação, que foram amplamente estimulados por João Paulo II? Vale lembrar que até o porta-voz de João Paulo II, o médico espanhol Joaquin Navarro-Valls, era integrante da Opus Dei.

Há, também, as questões relacionados à vida privada dos católicos, uma fortíssima preocupação dos dois últimos papas. Nesse campo, a igreja caminha no fio da navalha, correndo o risco de assumir um comportamento tão conservador que acabe não sendo seguido por boa parte dos seus próprios fiéis. Ainda não está claro qual será a opinião de Francisco, e não mais de Bergoglio, diante de temas como a comunhão de divorciados, a virgindade antes do casamento, a proibição da camisinha e de métodos contraceptivos, a condenação do homossexualismo e do aborto. No fundo, essas questões podem erodir a institucionalidade do papa, criando um duplo registro nos fiéis: “adoro o papa, mas não tenho a intenção de seguir o que ele fala”. Esse risco foi claramente percebido por Bento XVI que fez a opção por manter apenas o núcleo duro de fiéis dispostos a seguir essa agenda conservadora em suas vidas. O que fará Francisco na busca por ampliar seu discurso? Aceitará o duplo registro entre a pregação e a prática ou mudará o discurso da igreja?

Na seara interna, se Francisco estiver realmente disposto a ser um reformador, dois temas aparecerão de imediato na sua agenda.

Qual o comportamento da igreja de Francisco diante do tema da pedofilia dos padres? Há processos na justiça em vários países e dioceses falindo depois de serem condenadas à pesadas indenizações. Com João Paulo II, a postura foi negar os fatos e trocar os culpados de paróquia. Ou seja, jogar a sujeira para debaixo do tapete. Já Bento XVI parece ter demonstrado mais interesse em enfrentar o problema, embora os avanços tenham sido tímidos. Como será com Francisco?

O outro tema espinhoso da agenda interna do Vaticano responde pelo nome de Instituto para Obras Sociais, também conhecido como Banco do Vaticano. Um tema polêmico desde os tempos do banco Ambrosiano, do “suicídio” de Roberto Calvi, da loja maçônica P2 e da estranhíssima morte de João Paulo I. O Banco do Vaticano sofre pressão dos reguladores do sistema financeiro “tradicional” por não seguir as regras de Basileia, abrindo as portas para se tornar uma lavanderia para todo dinheiro sujo do planeta. Essa será uma questão da agenda de Francisco?

Por fim, há um rol de temas sobre os quais não há que se ter a menor esperança de avanços no curto/médio prazo. Questões como a ordenação de mulheres e a falibilidade papal parecem ficção científica para a igreja católica, mesmo no século XXI. A tendência é que Francisco nem chegue perto desses temas.

O fato é que, por enquanto, temos apenas um papa carismático e um profundo esquema de divulgação na mídia. O resto ainda está no campo das boas intenções e o tempo dirá…