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Em menos de duas semanas, duas embarcações superlotadas, vindas da Líbia a caminho da Itália, naufragaram, matando cerca de mil pessoas. Mil pessoas!!!!!!!! E quase não se ouviu nada a respeito.

Vindos de vários países da África, fugindo da miséria e violência, essas pessoas tentam chegar na ilha italiana de Lampedusa e, a partir dali, ganhar vida nova na Europa.

Tal fluxo migratório não é novo. Mas, se intensificou nos últimos anos com imigrantes vindos da Síria, do Iraque e da própria Líbia.

Líbia e Iraque eram governados por ferozes ditaduras. A Iraquiana foi durante anos apoiada pelos Estados Unidos. A líbia passou, em seus momentos finais, de pária a queridinha do Ocidente. Nos dois casos, as ditaduras foram depostas a partir de uma intervenção militar comandada pelos Estados Unidos.

Nos dois casos, os países eram construções artificiais do pós-colonialismo europeu. O Iraque dividido entre a maioria xiita, a minoria sunita que efetivamente governava o país e os curdos. A Líbia dividida pelas rivalidades tribais entre a Tripolitânia, a Cirenaica e o Fezã.

Nos dois casos, as intervenções militares com apoio externo implodiram o país, levando a uma situação de caos generalizado. Salafistas e a Al Qaeda, na Líbia, e o ISIS, no Iraque, se aproveitaram da situação para tomar parte dos territórios e instaurar governos de fato.

Algo semelhante ocorreu na Síria, governada por uma família de origem alauita (próximos aos xiitas iranianos). O fim da ditadura veio pelas mãos de forças insurgentes amplamente financiadas pela Arábia Saudita e os Estados Unidos. Com o caos generalizado, o ISIS tomou conta de boa parte do território sírio.

Desde então, pessoas apavoradas, fugindo do fundamentalismo sunita, da violência das guerras e da fome tentam desesperadamente chegar à Europa.

Milhares morrem no caminho. Nem ao menos seus corpos serão encontrados, permanecendo das profundezas do Mediterrâneo. Enquanto isso, as potências ocidentais, largamente responsáveis pela crise histórica da África e por essa mais recente que se abate sobre o Oriente Médio, assistem a tudo impassíveis.

Aos mortos não restará nem mesmo a indignação mídiática. Morrerão como sempre viveram: esquecidos!