A recém-encerrada Olimpíadas no Rio de Janeiro foi um momento exemplar para vermos in loco o funcionamento desse par inseparável do ethos nacional: Pacheco e vira-latas.

Com a ascensão da burguesia como classe hegemônica deu-se a construção de um ente histórico que, à esquerda e à direita, passou a ser tratado como característica naturalizada: o estado-nação. Algumas experiências de estado-nação apelaram para uma suposta unidade racial, como os germânicos, eslavos, sionistas, hans, etc. Mas, em todos os casos, a naturalização do estado-nação passa necessariamente pela constituição de um ethos nacional. E, embora o ethos seja uma criação, ele não deixa de ter efeitos muito concretos. Um desses efeitos é a negação de identidades locais, transversais, cambiantes, mestiças, em detrimento de uma suposta unidade.

No ethos brasileiro existe a promessa de sermos grandes no futuro, de ocuparmos um lugar de destaque entre os demais estados-nação. A dissociação entre nossa realidade presente e o futuro almejado gerou dois tipos de comportamentos de resposta que surgem sempre juntos, como irmãos siameses: o pachequismo e o viralatismo. De tal forma estão entrelaçados que se torna impossível analisar qualquer um deles separadamente.

Muitas vezes a mesma pessoa oscila entre um e outro em questão de minutos. Assim, por exemplo, somos os mais inventivos, criativos, generosos, hospitaleiros, afetuosos e bem humorados da face da Terra. Mas também somos os mais corruptos, preguiçosos, mal educados e violentos entre as nações. De uma forma ou de outra repousa o fato de que somos diferentes do resto dos seres humanos. E não apenas diferentes, mas melhores ou piores. E sempre de forma superlativa, como o futuro que nos foi prometido.

Trata-se de um maniqueismo que dispensa a necessidade de entender um mundo cada vez mais complexo. Assim, diante de qualquer situação, temos sempre um das duas opções para sacar como resposta. Somos os melhores ou somos os piores. E pronto, não há mais necessidade de discutir o assunto.

Para superar o viralatas, precisaremos banir também o Pacheco. E vice-versa. E a receita passa por esquecer qualquer promessa de um futuro grandioso e assumir o que somos de peito aberto. E reconhecer que, embora tenhamos uma série de características particulares, não somos nem melhores nem piores do que ninguém. E que o mundo é muito mais diverso do que um simples “lá fora” parece indicar.