É fato que a recente entrevista do Papa Francisco à revista La Civiltà Cattolica apontou importantes avanços no tratamento de temas como o homossexualismo e o aborto. Mas, nenhum desses temas é um dogma da Igreja Católica e poderiam sofrer este tipo de comentário do papa sem abalar os pilares doutrinários da Igreja (por mais que isso venha a chocar os setores conservadores do catolicismo).

Por outro lado, por pelo menos três vezes ao longo da entrevista, Francisco I questionou a infalibilidade papal, definida como dogma pelo Concílio Vaticano I. Diz a constituição dogmática Pastor Aeternus, de 1870:

“O Romano Pontífice, quando fala ‘ex cathedra’, isto é, quando no exercício de seu ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define uma doutrina de fé ou costumes que deve ser sustentada por toda a Igreja, possui, pela assistência divina que lhe foi prometida no bem-aventurado Pedro, aquela infalibilidade da qual o divino Redentor quis que gozasse a sua Igreja na definição da doutrina de fé e costumes. Por isto, ditas definições do Romano Pontífice são em si mesmas, e não pelo consentimento da Igreja, irreformáveis.”

Mas, vejamos o que disse Francisco na já famosa entrevista:

“Pelo contrário, desconfio das decisões tomadas de modo repentino. Desconfio sempre da primeira decisão, isto é, da primeira coisa que me vem à cabeça fazer, se tenho de tomar uma decisão. Em geral, é a decisão errada. Tenho de esperar, avaliar interiormente, tomando o tempo necessário.”

“Se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela. Quer dizer que é um falso profeta, que usa a religião para si próprio.”

“Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, uma figura de linguagem. Sou um pecador.

Isso que, para a maior parte das pessoas, pode parecer uma filigrana, tem um peso teológico gigantesco e, consequentemente, um enorme impacto na política eclesiástica. Afinal de contas, se o papa erra e, principalmente, peca, suas decisões podem ser questionadas. Com isso, abre-se uma porta para desdobramentos imprevistos que, com certeza, não passarão despercebidos pelos teólogos de todas as matizes.