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Os jornais estão noticiando uma guerra entre o norte-americano Uber e a chinesa Didi, que começaria no Brasil, através da compra do aplicativo 99 pela Didi.

Mas isso é apenas a superfície do mercado. Se quisermos entender como funciona o mercado de verdade precisamos ir além das aparências, coisa que a grande imprensa raramente faz.

O Uber abriu uma filial na China em sociedade com investidores locais, como a Baidu. Mas, em 2016, acabou desistindo de operar na China e aceitou uma proposta de compra feita justamente pela Didi.

Com a compra, os acionistas do Uber China, entre eles o próprio Uber, ganharam 20% das ações da Didi. Ou seja, o Uber se tornou acionista da Didi.

O acordo para a compra envolveu, também, o compromisso da Didi investir US$ 1 bilhão em ações do Uber. Ou seja, a Didi se tornou acionista do Uber.

Para tornar tudo ainda mais complexo, a japonesa Softbank (dona do Yahoo Japão, da telecom norte-americana Sprint e da ARM) é uma das principais investidoras da Didi e se tornou, em dezembro, a maior acionista do Uber. Ela, portanto, estará dos dois lados dessa “guerra”.

Boa parte do dinheiro usado pelo Softbank para investir no Uber e na Didi vem de um fundo de investimentos que ele administra, chamado Vision Fund. Esse fundo tem como grandes investidores os fundos soberanos da Arábia Saudita e de Abu Dhabi (Mudabala), a Apple, a Qualcomm e a Sharp.

(Aliás, o Mudabala é um dos principais investidores da Global Foundries, que faz boa parte dos chips desenhados pela Qualcomm, sócia da Mudabala no Uber e na Didi.)

Obviamente, se formos analisar cada uma dessas empresas acharemos um conjunto enorme de outros fundos de investimento em relações complexas de participação cruzada.

Enquanto a grande imprensa se diverte falando de uma “guerra” entre Uber e Didi, o capitalismo financeiro constrói a realidade do mundo em que vivemos.