Quando a crise estorou, em 2008, o governo teve uma reação imediata e correta. Apostou no seu mercado interno, no crescimento da chamada “nova classe C” para bancar um movimento anti-cíclico baseado no consumo. Ocorre que este é um movimento de fôlego limitado e que logo esbarria nos limites de endividamento da população. Trata-se, apenas, de um paliativo à espera de alternativas mais profundas.

O governo Dilma vive exatamente o momento em que aquela aposta de 2008 se esgotou, sem que o governo, contudo, tenha construído alternativas de médio e longo prazo. Sendo assim, o governo se move agora para tentar diminuir preços e esticar o quanto der o aumento de consumo. Novamente, este é um movimento de curto prazo e impressiona a incapacidade de pensar alternativas.

Mas, mesmo este movimento já nasce fadado ao fracasso. Sem a vontade política e a capacidade técnica para pensar uma verdadeira política industrial, o governo apela para uma farra de desonerações fiscais sem qualquer tipo de contrapartida. Os setores desonerados não estão se comprometendo formalmente com a diminuição de preços, com a geração ou mesmo a manutenção de empregos e, principalmente, com investimento em ciência e tecnologia locais.

Na prática, o que assistimos é o aumento das margens de lucros das empresas desoneradas. Mas, principalmente, o grande impacto desse arremedo de política industrial é a queda da arrecadação por parte do Estado. Em julho de 2012, a arrecadação de R$ 87,9 bilhões foi 7,63% menor do que julho do ano passado. Em TODOS os meses deste ano, a receita projetada pelo governo ficou acima do realmente arrecadado. Até junho, a diferença entre o previsto e o arrecadado já chegava a R$ 20,7 bilhões.

Ao mesmo tempo, o governo mantém a meta de superátiv primário.

Ora, uma economia que não cresce (o crescimento do PIB este ano deve ficar abaixo de 2%), um consumo que não aumenta, um Estado que abre mão de arrecadação e um superavit alto constituem, de fato, um cenário onde não há recursos para reajustar os salários dos servidores, há quatro anos sem aumento.

Discurso petista

Mas, o pior dessa greve dos servidores públicos é que o governo, e a própria militância petista, passou a assumir um discurso diante do servidor público que é praticamente idêntico àquele do governo FHC. Nas entrelinhas os servidores são chamados de vagagundos e marajás e seus salários são comparados com a base da pirâmide da iniciativa privada. Com isso, estimula-se um rancor contra os servidores públicos, como se eles fossem a causa do problema: “vagabundos que não trabalham e ainda querem ganhar mais”.

Ao invés de estimular a solidariedade entre os trabalhadores, o governo Dilma estimula a concorrência e até mesmo o rancor. Enquanto discutem entre si, os trabalhadores deixam de perceber a verdadeira causa da situação em que vivem.

Esse tipo de postura do governo Dilma não terá efeitos apenas nessa greve, mas no futuro da organização dos servidores públicos e, de quebra, na própria Central Única dos Trabalhadores (CUT). Curiosamente, dessa vez, a repressão veio do partido que ainda se auto-intitula “dos trabalhadores”.