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Por sugestão do doutor Laudauer, eu fui à Iena em 08-11 para encontrar o professor Hans Gunther, fundador da teoria da raça nacional-socialista. A conversa durou duas horas. Gunther foi muito amistoso. Declarou não ter direito de autor sobre conceito de arianismo e concordou comigo sobre o fato de os judeus não serem inferiores, mas diferentes, e que era preciso resolver o problema com decência.(RUPPIN, Arthur. Diário pessoal. 1933)

Grosso modo podemos dizer que existem dois tipos de nacionalismos: o cívico e o étnico. Brasil, Estados Unidos e Itália, por exemplo, são nacionalismos cívicos, que independem da origem étnica de seus cidadãos. Já os nacionalismos eslavos, turco e chinês (han) têm forte componente étnico. Mas, mesmos tais nacionalismos, com a derrocada do nazismo, se viram obrigados a abrandar seu discurso étnico, mesclando-o com aspectos típicos dos nacionalismos cívicos.

Curiosamente, um dos únicos nacionalismos étnicos que não abrandou seu discurso, mas, pelo contrário, acentuou suas características raciais, foi o judaísmo sionista (cuja origem está profundamente relacionada ao germanismo do século XIX). Ora, a pretensão racial do judaísmo é não apenas recente como uma fraude (como a rigor qualquer pretensão à identidade racial de um povo).

Até a primeira metade do século XIX, a identidade judaica estava basicamente relacionada a uma crença religiosa e a cultura construída no entorno desta crença. No campo das relações sociais, um judeu alemão teria muito mais pontos de identidade com um alemão protestante do que com um judeu marroquino, por exemplo. Mas, o crescente racismo dos nacionalismos europeus empurrou os judeus a criarem seu próprio nacioanalismo étnico, que, como todos os demais, está alicerçado na fraude de um mito de origem.

A simples análise dos fenótipos ashkenazi e sephardi ajuda não apenas a desmitificar a idéia de que todos possuem a mesma origem racial como, pelo contrário, aproxima-os de seus lugares de origem. Porque ou aceitamos a hipótese de que judeus possuem um incrível poder mimético ou é óbvio que o fenótipo dos ashkenazi é bem mais parecido com o dos povos do centro e leste europeu do que com os judeus sephardi (que, por sua vez, têm fenótipo típico de berberes e dos povos do entorno da Mediterrâneo).

(Aqui vale lembrar que há, inclusive, uma forte hierarquia racial não explícita que divide ashkenazi de sephardi como se pode ver, por exemplo, nessa matéria do Haaretz.)

Ao contrário do que defende o mito, não teria havido uma diáspora de todo o povo judeu, o que faz acreditar que muitos dos atuais palestinos sejam descendentes de antigos hebreus. Mas, principalmente, boa parte dos atuais judeus é descendente de fortes movimentos de conversão, que o mito de origem busca esconder. Sobre isso, vale a pena ler o que nos escreve o professor da Universidade de Tel-Aviv, Shlomo Sand (veja aqui uma resenha do primeiro de seus três livros sobre o tema).

O problema é que questionar a identidade racial do povo judeu termina por questionar o direito de retorno. Ora, se um judeu polonês não é descendente dos hebreus, que direito ele teria de reivindicar terras na Palestina? Sem o componente racial, simplesmente não haveria Israel, mas um estado como outro qualquer, formado pelas pessoas que nascem naquele local.

(Não é o objetivo desse texto, mas, mesmo que houvesse uma identidade racial entre os atuais judeus e os antigos hebreus, é uma loucura que alguém reivindique o direito a terras ocupadas por seus antepassados há quase dois mil anos. Se aplicada a todos os povos, mudaria completamente a geopolítica do planeta.)

Esse componente racista está na origem da diferenciação fática (mas, também em vários casos, de base legal) que o Estado de Israel promove entre judeus e não judeus, impedindo a constituição de uma democracia de verdade. É também essa concepção racista que causa a confusão entre o boicote ao Estado de Israel e um suposto boicote a judeus, que são coisas totalmente diferentes.

Portanto, é uma das tragédias de nosso tempo que a resposta ao racismo anti-semita tenha sido o racismo sionista e que ambos compartilhem o mito de uma identidade racial do povo judeu, como demonstra a concordância entre Hans Gunther e Arthur Ruppin.