Enquanto a Síria caminha para uma guerra civil, cabe examinar mais de perto esse slogan de “primavera árabe” que se procurou colar nas mudanças que marcam a região.

A vulgata de direita via na “primavera árabe” um vento liberalizante a derrubar ditaduras estatistas. A grande imprensa confundia a todos ao divulgar um suposto questionamento popular aos movimentos fundamentalistas. E a esquerda, em sua busca de novos referenciais, misturava os jovens da praça Tahrir com aqueles que ocupavam Wall Street, como se todos fossem expressões da mesma insatisfação. Talvez a melhor análise tenha vindo do big business transnacional, pragmaticamente preocupado com as ameaças que tais mudanças pudessem representar para os seus negócios na região, especialmente no Egito, na Tunísia e na Líbia (desde que Gaddafi se convertera na nova estrela do “mundo civilizado”).

Mas, passados 20 meses que Mohammed Bouazizi se imolou em Sidi Bouzid, talvez já seja possível tirar algumas conclusões para além dos slogans propagandísticos.

Antes de qualquer análise factual, porém, cabe reconhecer que a região tem uma língua franca (o árabe), que a imensa maioria dos seus habitantes reza para o mesmo deus e que este início de século XXI viu surgir um ambiente transnacional de bens culturais, especialmente através da Al Jazeera. Mas, por outro lado, existem enormes diferenças culturais, tribais, étnicas e religiosas, as vezes dentro de um mesmo país. A atual Líbia, por exemplo, é dividida por centenárias rivalidades tribais e engloba dentro de si três regiões de história e ocupações bem distintas: a cirenaica, a tripolitânia e o fezã. A divisão não é menor entre muçulmanos, cuja separação clássica em sunitas e xíitas mascara, ao olhar do ocidental desatento, divergências ainda maiores entre as diversas seitas. É importante ter essas diferenças em conta para não se deixar enganar por quaisquer análises generalizantes.

Dito isso, o que se tem de concreto é que todos os governos que caíram desde dezembro de 2010 (Tunísia, Líbia, Egito, Iêmen e mesmo a Síria) são, direta ou indiretamente, derivados do pan-arabismo nasserista. Embora representassem perspectivas de mudanças perante o imperialismo europeu, todos derivaram para brutais ditaduras, onde as forças armadas exercem poder político e, principalmente, econômico. São essas ditaduras laicas que ruíram agora.

Também é fato que a juventude urbana participou ativamente da queda das ditaduras destes países. Mas, essa mesma juventude foi incapaz de se articular em torno de bandeiras concretas e a queda do nasserismo degradado abriu espaço para a ascensão de movimentos religiosos, como o Ennahda tunisiano e a Irmandade Muçulmana no Egito. Eram esses movimentos, escudados em décadas de enfrentamento às ditaduras laicas, que tinham a estrutura social e econômica para ocupar o vácuo de poder surgido com a queda dos antigos regimes.

Em que pese a chegada ao poder político de movimentos religiosos na Tunísia e no Egito e da sua presença na revolução líbia e na guerra civil na Síria, também é forçoso reconhecer que os fundamentalistas não chegaram ao poder, sejam os salafitas na Líbia e no Egito, sejam seus rivais da Al Qaeda no Yemen.

Ainda não é possível saber como esses processos revolucionários irão se relacionar com o poder econômico dos antigos regimes. No Egito, a Irmandade Muçulmana dá sinais de querer enfrentar o poderio das forças armadas, enquanto na Líbia e no Yemen, vários integrantes do antigo regime posam de revolucionários puro-sangue.

Mas, enquanto a grande mídia noticia a “primavera árabe”, esconde-se o fato de que o wahabismo saudita reprimiu com mão de ferro a insurreição no Bahrein, garantindo a “tranquilidade” necessária na sede da 5° frota norte-americana.

Síria

A guerra civil síria é um laboratório concentrado de todas as tensões da região. Que papel terão os dissidentes do regime da família Assad? Depois de ter apoiado por anos a ditadura síria, e ter trocado de lado, qual a relação que a Turquia terá com um eventual novo governo? Um novo regime demonstrará a mesma tolerância que os Assad tiveram para com a minoria cristã ou a vida dos não-muçulmanos sírios será tão difícil quanto tem sido a dos coptas no Egito pós-revolucionário? Até onde o xiísmo iraniano estará disposto a defender seus “primos” alauítas? Qual o papel que o wahabismo terá num eventual novo governo, já que as forças rebeldes hoje recebem forte apoio saudita? O que ocorrerá no Líbano, e com os xíitas do Hezbollah, hoje fortemente apoiados pela Síria?

Mas, principalmente, como se portarão Rússia, China e Estados Unidos? Os russos assistirão a queda de seu último aliado na região? A China demonstrará interesse em interferir diretamente na política de países para além de suas fronteiras geográficas? Ou seja, a China estará disposta a se tornar uma potência política mundial? E como os Estados Unidos lidarão com um cenário cada vez mais complexo?

Por último, o que fará o sionismo israelense diante de novos governos nos seus vizinhos no Egito e na Síria? Se é verdade que os laços iranianos com a Síria serão praticamente cortados, o novo governo egípcio não parece demonstrar a mesma “boa vontade” inaugurada por Sadat e mantida por Mubarak.

Enfim, falar em “primavera árabe” é substituir uma realidade hiper complexa por um slogan que tem o único mérito de permitir que todos vejam apenas o que desejam ver.