O surgimento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS, na sigla em inglês, ou DAESH, em árabe) é uma resposta endógena do mundo islâmico (principalmente árabe) a uma conjuntura imposta de fora para dentro. Sua análise deve, por isso, levar em consideração tanto questões internas quanto externas ao universo muçulmano. Ao mesmo tempo o ISIS é fruto de processos históricos de longa duração. Sendo assim, é fundamental ir construindo lentamente o painel multifatorial que, ao fim e ao cabo, permitiu o surgimento deste grupo jihadista.

Parte 1 – O cenário aonde o ISIS nasceu

A origem do fundamentalismo

Embora o mundo árabe (com exceção do Marrocos e do Sudão) tenha vivido por séculos sob o domínio turco, sua cultura e religiosidade estavam preservadas. Se é possível falar em estagnação ou mesmo em declínio da cultura árabe, não seria nada parecido com o que o colonialismo europeu reservava àqueles povos a partir do século XVIII.

Foi nesse ambiente de desagregação do Império Turco Otomano e de avanço do imperialismo europeu cristão que o mundo árabe viu surgir uma série de movimentos fundamentalistas, sendo o mais expressivo aquele liderado pelo teólogo Ibn Abd-Al-Wahhab e que ficou conhecido como wahabismo. Fazia parte de sua pregação a intenção de promover o retorno a um passado idealizado e a profunda intolerância com quaisquer outras manifestações religiosas, inclusive aquelas dentro do próprio islamismo e particularmente o xiismo. Sua aliança com Muhammad bin Saud, ainda no século XVIII, transcendeu em muito a tentativa de criação do Emirado Diriyah e forneceu o substrato ideológico para todas as futuras monarquias da península arábica, em especial a Arábia Saudita.

Este fundamentalismo árabe sunita permaneceu relativamente adormecido ao longo do século XIX até surgir como uma das duas principais (e opostas) respostas ao avanço ainda maior do colonialismo europeu ao fim da I Guerra Mundial, englobando diversas tendências reunidas sob a bandeira do movimento salafita.

O pan-arabismo

O século XX é um momento de intenso debate no interior do mundo árabe sobre o que fazer a partir do total domínio ocidental que impõe o surgimento de países, a ascensão de novas elites, a importação de culturas e tecnologias, a transformação de modos tradicionais de vida e, principalmente, o empobrecimento e a marginalização de massas de excluídos. Em linhas gerais, as soluções apresentadas são duas e opostas: o fundamentalismo sunita e o pan-arabismo laico e de inspiração socialista. O fracasso do segundo foi determinante para a ascensão do primeiro como única alternativa contestatória.

Sob o nome de pan-arabismo podemos encontrar um conjunto mais ou menos articulado de iniciativas políticas, com amplo apoio popular e intelectual, que visava construir uma alternativa nacionalista ao avanço do imperialismo europeu e norte-americano. O maior nome do pan-arabismo foi o do presidente egípcio Gamal Abdal Nasser, que nacionalizou o canal de Suez, laicizou o ensino e enfrentou o fundamentalismo da Irmandade Muçulmana. Mas Nasser fracassou ao confrontar o sionismo israelense e propor a criação de uma união com a Síria. Também foram expressões do nacionalismo árabe os governos da Síria (Bashar Al-Assad), da Argélia (Ben Bella), do Iêmen, do Iraque (Saddam Hussein) e da Líbia (Gaddafi).

Mas o pan-arabismo foi degenerando ao longo dos anos, apoiando-se cada vez mais em ditaduras militares e acabando por se aliar às potências imperialistas como no Egito, no Iraque dos anos 80 e nos últimos anos do governo de Gaddafi. Para as populações locais, o pan-arabismo terminou por representar uma frustração e muitas vezes a repressão contra minorias locais.

Primavera árabe

Exceto pela Tunísia (também um regime laico) e o Bahrain, todos os governos afetados pela Primavera Árabe eram egressos do pan-arabismo. Os descontentes eram em sua maioria jovens sem experiência política e incapazes de oferecer uma alternativa aos regimes que queriam derrubar. O fim dos governos nacionalistas também representou a irrupção de rivalidades tribais, étnicas e religiosas que estavam latentes por décadas.

Como as eleições egípcias de 2012 demonstraram, os movimentos fundamentalistas eram os únicos que dispunham de organização para crescer com o ocaso do nacionalismo árabe. Mas, ao mesmo tempo, por sua própria natureza de segregação de outras manifestações islâmicas, o fundamentalismo sunita não conseguiria construir um discurso de unidade árabe que substituísse o nacionalismo laico.

As potências ocidentais

O século XX tornou o Oriente Médio uma região central para o desenvolvimento do capitalismo, a partir especialmente da descoberta de enormes jazidas de petróleo e gás. Capitaneados pelos Estados Unidos, as potências ocidentais não cansaram de intervir na região para garantir seus interesses. Em algumas dessas intervenções o resultado acabou sendo o reforço de movimentos fundamentalistas. Foi assim, por exemplo, no apoio dado aos mujahidin afegãos contra as tropas soviéticas, que acabou originando o movimento conhecido como Taliban.

Mas poucas intervenções ocidentais foram tão importantes para o fortalecimento do fundamentalismo sunita quanto o apoio à constituição da Arábia Saudita. A monarquia absolutista da família Saud se revelou um importante aliado ocidental na região, no enfrentamento tanto do nacionalismo árabe quanto do xiismo persa. Ao mesmo tempo, os Saud e seus aliados nas demais monarquias da Península Arábica construíram uma poderosa máquina de exportação da interpretação wahabita do Islã, através de mesquitas, madrasas, fundações, publicações e canais de TV. Assim, o wahabismo alcançou países além da fronteira árabe (na África subsaariana, no sudeste asiático e no Cáucaso) e gerou o pano de fundo ideológico para o forte crescimento do jihadismo a partir dos anos 90 do século XX.

Por sua vez, o pedido de apoio da Arábia Saudita às potências ocidentais na I Guerra do Golfo, em 1990, gerou uma divisão no interior da família Saud e seus aliados locais. Setores sauditas condenaram a estratégia de recorrer aos infiéis cristãos para atacar um país árabe (no caso, o Iraque). Esses descontentes acabaram por se aliar a setores talibans desejosos de expandir sua fronteira de atuação para além do Afeganistão, gerando o primeiro grupo jihadista com ação transnacional: a Al Qaeda.

O grau a que chegaram as relações de setores das monarquias da Península Arábica com a Al Qaeda são objeto de intensa especulação, mas é possível admitir que boa parte dos recursos da Al Qaeda tenha origem em fortunas da Arábia Saudita, do Catar, dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein. Com isso, a monarquia saudita fica em uma intrincada posição de ser a principal aliada norte-americana na região ao mesmo tempo em que fomenta uma ideologia anti-ocidental e financia movimentos jihadistas.

Os não-países

Com o pretexto dos atentados às Torres Gêmeas, os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 e depuseram a ditadura de Saddam Hussein. O fim do governo do partido Baath fez explodir o caldeirão étnico e religioso do Iraque, um país artificialmente construído pelas potências ocidentais para abrigar parte dos seus aliados do clã Hashemita. Desde então, o país vive sob constantes e violentos conflitos internos, dividido entre uma maioria xiita ao sul e sudeste, sunitas no centro-oeste e curdos ao norte.

Aproveitando-se da sublevação da Primavera Árabe, as potências ocidentais também atuaram diretamente na derrubada do governo líbio do coronel Gaddafi, mesmo que esse tenha promovido uma aproximação com o ocidente em seus últimos anos no poder. A deposição do regime anterior fez explodir rivalidades tribais de um país radicalmente dividido há séculos em três regiões bem distintas: Cirenaica, Tripolitânia e Fezã.

A queda desses dois regimes criou enormes áreas inalcançadas pelo poder estatal, fornecendo importantes recursos humanos para os movimentos jihadistas de inspiração salafita e wahabita e criando áreas de livre circulação de armas e insumos para o que viria a se tornar o ISIS.

Cáucaso

O fim da URSS revelou ao mundo um outro caldeirão étnico e religioso encravado na cordilheira e nas planícies do Cáucaso e que, desde o período czarista, sofria com o expansionismo eslavo. A situação ficou ainda mais complexa dado aos intensos remanejamentos populacionais e a repressão promovidos pelo stalinismo na região, bem como a ação violenta do governo russo pós soviético. Imbricado em questões políticas, econômicas e étnicas, o conflito entre cristãos e muçulmanos aparece em regiões como a Chechênia, Abecássia, Ossétia, Daguestão, Inguchétia e Nagorno-Karabakh. Ao mesmo tempo em que viu surgir um movimento jihadista que visa criar um Califado do Cáucaso, a região se tornou importante fornecedora de recursos humanos para o ISIS.

Parte 2 – O Estado Islâmico do Iraque e do Levante

Al Qaeda do Iraque

O governo de Saddam Hussein foi fortemente marcado pela hegemonia sunita e um histórico de repressão à maioria xiita e aos curdos. Com sua deposição e o fim do governo de transição, em 2006, uma até então impensada articulação entre Irã e Estados Unidos permitiu a eleição de um primeiro-ministro e um gabinete controlado por xiitas. Os anos de domínio sunita haviam criado um terreno fértil para que a ira xiita explodisse de forma violenta, sob o olhar complacente do novo governo.

Foi nesse cenário de revide xiita ao antigo domínio sunita que o pequeno grupo jihadista sunita conhecido como “Al Qaeda do Iraque”, dada a sua relação de dependência com a organização de Osama Bin Laden, pôde crescer a partir da aliança com outras organizações locais. O grupo acabou recebendo o inesperado reforço de militares egressos do partido laico Baath, muitos com sofisticado treinamento militar, e ávidos por impor uma revanche às forças ocidentais que depuseram o regime de Saddam. Nesse momento o grupo passou a se chamar Estado Islâmico do Iraque (ISI, na sigla em inglês) e começou a demonstrar uma importante diferença em relação à Al Qaeda original, na medida em que aspira constituir um califado e exercer um verdadeiro controle territorial (administrações locais, cobrança de impostos, justiça, etc).

Embora tenha surgido no Iraque, foi apenas a partir de seu crescimento na Síria que o ISIS pôde dispor da força necessária para avançar em território iraquiano, aproveitando-se da fragilidade e desorganização do Estado e das forças armadas e do fracasso da resistência dos até então temidos pershemerga do Curdistão iraquiano.

Em uma avassaladora ofensiva ao longo de 2014, as forças do ISIS seguiram em direção ao norte, através do vale do rio Tigre, tomando as importantes cidades de Tikrit e Mosul (hoje sua capital de fato no Iraque).

O ISIS chega à Síria

O governo dos Assad, na Síria, é o único aliado da Rússia no Oriente Médio, além de ter relações muito próximas com o Irã. A despeito de importantes avanços na diminuição da pobreza e de relativa tolerância religiosa, havia internamente um forte descontentamento da maioria sunita diante de um governo controlado por alauítas (corrente do Islã muito próxima dos xiitas). Foi com as revoltas da Primavera Árabe que os Estados Unidos perceberam a oportunidade de capitalizar o movimento e destituir o regime da família Assad.

Para alcançar seus objetivos os Estados Unidos, com apoio das monarquias da Península Arábica, resolveram constituir uma frente com todos os grupos dissidentes do regime sírio e equipá-los com a infraestrutura bélica necessária. Ocorre que, entre esses grupos, o mais organizado era uma franquia local da Al Qaeda, conhecida como Frente Al Nusra, e que contava com forte apoio do ISI iraquiano. Na prática, e mais uma vez, os Estados Unidos estavam fornecendo armas para o fundamentalismo sunita. Os dissidentes, capitaneados pela Al Nusra, lograram contundentes vitórias contra o governo sírio, que rapidamente perdeu o controle sobre amplas porções de seu território.

Com isso, abriu-se uma brecha para que os curdos sírios avançassem no controle de parte da região nordeste do país, em busca da sonhada constituição do Curdistão. Essa movimentação chamou a atenção da Turquia, que trava há anos uma luta para reprimir as aspirações separatistas dos curdos turcos. A Turquia sabia que os curdos sírios agiam em profunda aliança com os cursos turcos e daí surgiu o temor de que o Curdistão sírio fortalecesse a luta no Curdistão turco. De quebra, a queda de Assad significaria um enfraquecimento do Irã, um antigo opositor turco na região. O governo de Tayyip Erdogan, então, passou a apoiar os fundamentalistas sunitas na Síria, em aliança especialmente com a Arábia Saudita e o Catar. A enorme fronteira entre os dois países se tornou uma vasta peneira por onde entravam armas, víveres e combatentes e saía o petróleo extraído nas terras agora controladas pela Al Nusra.

Mas, no primeiro semestre de 2013, após uma série de desentendimentos internos, Abu Bakr Al-Baghadadi, o jordaniano que liderava o ISI, anunciou o rompimento com a Al Qaeda e a separação de seus contingentes da Al Nusra, transformando o então ISI no atual Estado Islâmico do Iraque e do Levante, com atuação no Iraque, na Síria e buscando expandir-se para a Líbia, a Palestina, o Paquistão e outras regiões do Oriente Médio. Surgia o ISIS, que rapidamente se tornou conhecido para além do Oriente Médio pela rapidez de suas vitórias, a ferocidade de suas ações, o alto grau de intolerância religiosa e uma enorme percepção da importância da mídia como instrumento de agitação e propaganda.

Ao fim e ao cabo, o surgimento do ISIS foi uma resposta do islamismo sunita às fortes intervenções das potências ocidentais na política do Oriente Médio e, ao mesmo tempo, é consequência também da incapacidade das elites árabes de oferecerem uma alternativa viável às massas excluídas, para além do fundamentalismo religioso.