“A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho”. (Karl Marx / O Capital – Livro 1 (“O processo de produção do capital”) – Volume 1 – Primeira Parte (“Mercador e Dinheiro”) – Capítulo 1 (“Mercadoria”) – Item D (“Forma dinheiro do Valor”) – “O Fetichismo da mercadoria: seu segredo” / Editora Civilização Brasileira / Tradução de Reginaldo Sant’Anna)

A primeira edição deste livro foi publicada há exatamente 145 anos! Mas, poucos livros escritos nos dias de hoje são tão atuais. Infelizmente, ao longo especialmente do século XX, interpretou-se que o cerne da obra de Marx estaria na crítica à apropriação privada do excedente da produção e consequentemente na desigual distribuição deste excedente entre capitalistas e trabalhadores. Com isso, surge uma visão do marxismo como o defensor do trabalho contra o capital. Se é verdade que Marx criticou essa distribuição desigual e seus efeitos deletérios, sua crítica principal, contudo, foi justamente à criação de um mundo onde todos (inclusive os burgueses) se tornaram escravos do trabalho. Marx não pretendia libertar os trabalhadores dos capitalistas, apenas. Sua utopia era libertar a humanidade da escravidão do trabalho. Daí que seu principal livro começa com uma análise daquilo que é a manifestação concreta do “trabalho abstrato”: a mercadoria.

Pois bem, poucas coisas no mundo de hoje espelham tão fielmente a citação acima de Marx do que um Ipad. Muito maior do que a distância em quilômetros que nos separa da China é a distância construída, na mente dos consumidores, entre um Ipad e as fábricas da Foxconn onde eles são feitos. Assim, os Ipads surgem como um produto já dado desde sempre, algo que o gênio humano criou sob inspiração divina sem que fosse necessário o trabalho, a labuta, de quem quer que seja. Trocamos a mercadoria-dinheiro por um Ipad deixando oculta “a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total” e vendo as funcionalidades de um Ipad nascerem diante dos nossos olhos como “características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho”.

Passados 145 anos, nunca isso foi tão verdade.