Recentemente estava lendo uma interessantíssima dissertação de mestrado que, não lembro como, me caiu às mãos: “A Separação de poderes da Revolução Americana à Constituição dos Estados Unidos: o debate entre os projetos constitucionais de Jefferson, Madison e Hamilton”, de Fernando Ramalho Ney Montenegro Bentes. E surgiu-me uma idéia meio estranha. Depois fui pesquisar um pouco e agora ela nem me parece tão estranha assim. Vejamos…

O autor da dissertação analisa, entre outras coisas, de que forma os movimentos “country” e “court” influenciaram o processo de independência e, principalmente, a confecção da Constituição norte-americana. O movimento “country” fazia uma oposição aos grandes capitalistas que passavam a controlar a indústria, o comércio e o sistema financeiro britânicos. Defendiam valores tradicionais, relacionados aos pequenos proprietários rurais (os yomen).

Nos Estados Unidos, a influência country se fez sentir especialmente nas constituições estaduais, sendo depois derrotada pelas forças da grande burguesia norte-americana, tão bem expressas nas posições de Alexander Hamilton. A principal figura do pensamento country foi Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e defensor das virtudes do pequeno proprietário rural, contra o poderio da grande burguesia. Jefferson defendia o direito de auto-defesa e era contra a formação de um exército profissional, que ele via como um risco à liberdade dos mais pobres. Foi um crítico contundente dos banqueiros e de seu crescente poder nos Estados Unidos pós-independência.

Aqui já deixando o texto da dissertação, não deixa de ser curioso perceber que, embora essa tendência tenha sido claramente derrotada na história dos Estados Unidos, ela jamais deixou de existir totalmente e de vez em quando vem a tona das mais diferentes formas, desde o “romantismo” dos transcendentalistas, como Thoreau e Emerson, até a existência de comunidades quakers (que, contudo, são anteriores ao movimento country).

Sob certo sentido, Hollywood bebeu muito nessa fonte para criar o ideal do homem simples, que luta pela sua independência, pela manutenção de seus valores tradicionais diante de um mundo controlado por poderosos. Ninguém encarnou tão bem esse papel quanto James Stewart.

Foi, então, que me ocorreu a idéia de que o Tea Party é um estranho herdeiro do movimento country, pois congrega em seu interior essa crítica ao “sistema”, essa revalorização do indivíduo frente às instituições dos “poderosos”, ao mesmo tempo em que defende um liberalismo que teria feito Hamilton corar e uma união entre Estado e igreja que Jefferson jamais teria concordado. Pois, descobri que Ron Paul, um dos mais proeminentes membros do Tea Party, e seu filho Rand, não se cansam de usar Thomas Jefferson como uma suposta inspiração.

Interessante entender os caminhos que levaram a esse casamento tão improvável.