A gigante Microsoft anunciou a compra da divisão de telefonia celular da Nokia por € 3,79 bilhões e mais € 1,65 bilhão pelo licenciamento de patentes que pertencem à empresa finlandesa. O acordo envolve, também, a compra da marca Asha e o licenciamento da marca Nokia para uso em celulares e smartphones.

Se alguém tinha alguma dúvida, agora ficou evidente que a grande disputa no mercado de mobilidade (onde a voz tenderá a ser cada vez mais apenas um dos serviços possíveis) ocorrerá entre os sistemas operacionais e suas respectivas lojas de aplicativos.

Apple, Google e Samsung

Desde o surgimento dos smartphones (ou seja, da chegada da Internet aos aparelhos portáteis), a Apple é um atores centrais desse mercado, vendendo um conjunto fechado de hardware e software, que só estão disponíveis em seus próprios aparelhos. A empresa agora se prepara para viver seu maior desafio ao lançar um smartphone mais barato, que tentará ganhar espaço nos países mais pobres, ao mesmo tempo em que não pretende deixar de ser um objeto de desejo entre os mais ricos.

Se reina absoluta entre os tablets, a Apple vem perdendo mercado nos smartphones. No segundo trimestre de 2013, 80% dos aparelhos vendidos no planeta possuíam o sistema operacional Android, enquanto a Apple ficava em um distante segundo lugar, com 13,2% do market share. O Google, aliás, é a empresa que tenta o jogo mais arriscado. Ao mesmo tempo em que comprou a divisão de celulares da Motorola (antecipando o lance da rival, Microsoft), o Google tenta manter seu sistema operacional sendo usado por todas as demais fabricantes de celulares. Assim, o Google é parceiro e também concorrente de marcas como Samsung, LG, Sony e Huawei.

Para a Samsung a situação é simultaneamente prazerosa e incômoda. A empresa sul-coreana jamais conseguiu fazer deslanchar seu próprio sistema operacional, o Bada. E foi graças ao sistema operacional do Google (Android) que a Samsung se tornou a maior vendedora mundial de smartphones. Parceira prioritária e ao mesmo tempo dependente do Google, não deve ser fácil saber que a empresa norte-americana é dona de sua rival, Motorola.

Microsoft

A Microsoft é totalmente dependente do seu sistema operacional Windows e da suíte de escritório Office. A empresa demorou a entrar no mercado de celulares e patina com somente 3,7% dos smartphones vendidos no segundo trimestre deste ano.

A única solução possível era mesmo comprar um grande fabricante e entrar no jogo de verdade. A Microsoft sabe que o mercado de computadores pessoais é declinante e que o futuro pertence à mobilidade. Se ficar de fora do mercado de tablets e celulares a empresa corre o risco de em pouco tempo deixar de ser uma das referências desse mercado.

Mas, a compra da divisão de celulares da Nokia deixa algumas dúvidas no ar. A Microsft licenciava seu sistema operacional para outras empresas, como a HTC. A partir de agora ela seguirá o caminho do Google, mantendo a Nokia mas cotinuando a licenciar seu software para outras empresas, ou o caminho da Apple, fazendo da Nokia a única a rodar o Windows Phone?

A Microsoft licenciou a marca Nokia. A tendência é os aparelhos continuarem saindo com a marca finlandesa ou a partir de agora teremos celulares Microsoft no mercado? E a marca Asha, para aparelhos mais baratos que visam países mais pobres, será mantida?

Elop

Stephen Elop era o responsável pelo Office, na Microsoft, quando foi contratado para ser o presidente da Nokia, em setembro de 2010. Sua primeira decisão foi eliminar o sistema operacional Symbian, desenvolvido pela empresa finlandesa, e atrelá-la ao Windows Phone. O argumento era que a gigante finlandesa não poderia ser simplesmente mais uma a usar o Android e que ela precisaria de um diferencial. Mas, o Windows Phone não foi o sucesso esperado e a Nokia perdeu ainda mais valor de mercado.

Exatamente três anos depois, Elop pilotou a venda da Nokia para a Microsoft por um quantia pequena para esse mercado e passou a ser o principal candidato a presidente da própria Microsoft, quando Steve Balmer se aposentar em 2014. Estranho…

Geopolítica

O mercado de smartphones tende a se concentrar cada vez mais. Mas, essa concentração revela, também, uma nova geopolítica da Internet móvel. A Finlândia acaba de perder sua grande aposta nesse mercado. Anteriormente, a sueca Ericsson também desistiu de apostar em smartphones e tablets. A pioneira canadense Blackberry a cada dia que passa vê suas opções diminuírem e até seus diretores já comentam a hipótese dela se tornar apenas uma fornecedora de softwares, como o seu famoso sistema de envio de e-mails seguros.

Com isso, o mercado de mobilidade caminha para ser dominado por empresas norte-americanas (Google-Motorola e Microsoft-Nokia) e sul-coreanas (Samsung e LG) e chinesas (Huawei, Lenovo e ZTE). Correndo por fora estão o Japão (onde a Sony é uma das poucas a ter presença significativa fora de seu mercado doméstico) e Taiwan (com as declinantes HTC, Asus e Acer).

Ou seja, aqui também, como em vários outros setores da economia, o jogo parece ser disputado apenas entre norte-americanos e o sudeste asiático. A Europa não possui mais peças nesse tabuleiro e América Latina, África e o restante da Ásia jamais o tiveram. Nesse jogo, resta-nos consumir e exportar dividendos…