O primeiro turno das eleições municipais de 2016 deve servir como fonte para profundas reflexões pela esquerda. Abaixo, alguns elementos que buscam estimular tal reflexão.

1) Como já era de se esperar, a maior vitoriosa dessa eleição foi a descrença. É ela que está por detrás das abstenções, do voto nulo, do voto útil, mas também do “voto em qualquer um”, “voto em quem estiver na frente para não ter segundo turno” e, como no caso da cidade de São Paulo, “voto em alguém que não seja político”. Mas, essa descrença esconde uma multiplicidade de motivações. Há um descrédito, que se espalha pelo planeta, na democracia representativa. Mas há também um voto que já foi de esquerda e mais particularmente do PT e que se sente traído por aquele que parecia ser a última esperança na política. Essa é a abstenção do desencanto.

2) O maior derrotado das eleições foi o PT e seu satélite, o PCdoB. Entre as 92 cidades com mais de 200 mil eleitores, o PT venceu no primeiro turno apenas em Rio Branco. O PT vai para o segundo turno em sete dessas cidades (Recife, Santo André, Juiz de Fora, Vitória da Conquista, Anápolis, Santa Maria e Mauá). Na maior delas, Recife, o PSB ficou a 0,64% de liquidar a fatura já no primeiro turno. Já o PCdoB disputará o segundo turno em Contagem e Aracaju. Há a chance concreta de, pela primeira vez em eleições municipais, o PT não eleger nenhum prefeito nas principais cidades do país. Com isso, o PT caminha ainda mais para o interior do Brasil. E, sem a máquina do governo federal e das maiores cidades, as perspectivas para 2018 não são nada animadoras.

3) Lula não foi nessa eleição o grande eleitor que fora entre 2002 e 2014. Os candidatos que apareceram ao seu lado terminaram as eleições com altos índices de rejeição. Por outro lado, Lula é o plano A, B e C do PT para 2018. Não há alternativa, não há outros quadros nacionais e uma derrota de Lula pode significar uma debandada ainda maior de quadros partidários.

4) Como visto no item 2 acima, o voto que deixou o PT não migrou integralmente para o PSOL. Primeiro, porque essa transferência não é mecânica. Segundo, porque em muitas cidades o PSOL não possui a estrutura necessária para capturar esse voto. Mas também porque o PSOL não tem conseguido (com raras exceções, como o Rio de Janeiro) andar no fio da navalha e ser capaz de mostrar ao eleitor que o partido ocupa o vácuo da esquerda, mas não é exatamente uma continuação ou um satélite do PT. O ex eleitor do PT quer alguém que cumpra o papel de referencial ético-político que o PT já cumpriu, mas não quer o PT. Essa imagem de “substituto diferente” o PSOL ainda não é capaz de demonstrar, exceto pelo Rio de Janeiro.

5) Para se consolidar como nova referência na esquerda brasileira, o PSOL precisa superar um conjunto de desafios. Alguns trazidos do “velho PT” como as lutas intestinas entre tendências, a crescente influência dos mandatos parlamentares, a criação de uma vida interna para além das tendências e a dificuldade que os setores mais a esquerda do partido têm em sair da posição de oposição minoritária parlamentar para fazer a disputa de hegemonia na sociedade.

6) Mas o PSOL tem desafios novos. Um deles é avançar nos setores mais populares e nas periferias. Ao contrário do PT, nos anos 80, o PSOL não possui os clássicos instrumentos da esquerda como sindicatos e o movimento associativista, todos em crise no mundo contemporâneo. Para isso o PSOL terá que descobrir/inventar/dialogar com novos atores, muito mais fragmentados. Ao mesmo tempo, o PSOL terá que ter a capacidade de falar para os “não convertidos”. O partido tem utilizado bem a Internet e as redes sociais como espaço de diálogo, mas deve evitar reproduzir no “mundo real” o efeito bolha típico do “mundo virtual”. Por exemplo, é fundamental ter políticas para dialogar com os 25% da população brasileira que hoje estão na esfera do pentecostalismo.

7) A Rede poderia ter sido um partido que, ao mesmo tempo, apontasse um novo referencial organizativo (mais descentralizado) e que servisse de referência para um conjunto de forças de centro-esquerda que, ao saírem do PT, hoje se encontram órfãs. Infelizmente ela não se mostrou nem uma coisa nem outra. Disputará o segundo turno apenas em Macapá, Serra (ES) e Ponta Grossa (PR). Mas, mais importante, perdeu qualquer referência de mudança no cenário político.

8) A perda de prefeituras pelo PMDB não significa necessariamente uma perda de poder dos grupos políticos que compunham o partido. Na verdade, trata-se muito mais de uma dispersão partidária dos grupos políticos regionais que a partir de agora possuem uma pletora de legendas onde podem se acomodar. O emedebismo sobrevive no PMDB, mas também no PP, PSD, PR, PRB e em várias outras legendas menores.

9) O projeto de poder que Eduardo Campos montou no PSB morreu junto com ele e começou a se desfazer de fato nessa eleição.

10) A vitória de João Dória em São Paulo, ainda no primeiro turno, é fruto de uma série de fenômenos, como a perda de influência do PT sobre a periferia e o uso da máquina do estado. Mas o resultado desse conjunto de fatores é, sem dúvida, o fortalecimento de Geraldo Alckmin como candidato tucano à presidência em 2018. A partir de agora a guerra está declarada entre Alckmin, Serra e Aecio e não é descartável a hipótese de pelo menos um dos três vir a ser candidato por outro partido.

11) O atual presidente da República foi absolutamente irrelevante para o cenário das eleições municipais.

* – Não há comentários aqui sobre as eleições municipais no Rio de Janeiro, que virão em um post específico.