Cada vez fica mais claro que o país atravessa um processo de desindustrialização. Ou, dito de outra forma, o “circulo virtuoso das commodities” vivenciado no governo Lula não impediu o processo de desindustrialização que se iniciou no governo FHC.

É comum encontrarmos explicações de caráter conjuntural (câmbio, por exemplo) ou mesmo estrutural (escolarização, infra-estrutura de transporte, relação universidade-empresas, etc) para explicar tal fenômeno. Mas, parece-me que uma questão resiste em não ser debatida: o perfil histórico de nossa burguesia.

E, nesse sentido, nada nos é mais útil do que a Teoria da Dependência, em particular aquela vertente representada pela obra de Ruy Mauro Marini. Com a ajuda de Marini, percebemos que nossa burguesia nasceu de um projeto colonial e assim se mantém até hoje. Seu projeto (como ficou evidente nos anos FHC) é o de inserção subordinada e dependente no capitalismo globalizado. Sua ideologia só lhe permite tomar a frente em áreas complementares às dos grandes players internacionais, notadamente no setor primário. Ela jamais terá um projeto concorrente com seus sócios majoritários.

É um erro do desenvolvimentismo não analisar a formação de nossa burguesia e supor que ela poderia vir a desempenhar um papel de ruptura da subordinação nacional no contexto globalizado. Ao contrário, a vocação de nossa burguesia é a de operadora local desta mesma subordinação.

Constatado isso, só restam dois caminhos possíveis.

FHC foi coerente com sua obra intelectual do passado, ao contrário do que se diz, reconheceu muito claramente o perfil de nossa burguesia e chegou a conclusão de que a via desenvolvimentista era uma ilusão e que a única coisa a fazer era aceitar nosso caráter subordinado e dependente. Seu governo foi a conclusão óbvia de uma leitura da Teoria da Dependência que não reconhecia nenhuma alternativa ao papel naturalmente subordinado de nossa burguesia.

O caminho alternativo seria assumir que um outro ator de nossa história seria capaz de romper com o ciclo da dependência. Mas, o Partido dos Trabalhadores renunciou a esse papel e hoje colhe os louros da demanda chinesa voraz por commodities, mesmo sabendo dos limites históricos evidentes dessa opção.

Quem seria, então, esse novo ator?