Bruno Latour, em “Jamais fomos modernos”, acusa corretamente os críticos da modernidade de assumirem como premissa a própria modernidade que tanto criticam. Se prestassem menos atenção no discurso moderno e mais em suas práticas, teriam percebido que os próprios modernos não seguem o seu cânone. Pois, o mesmo argumento poderia ser usado para os críticos do liberalismo.

Liberais e anti-liberais assumem o mesmo discurso, de que o liberalismo seria uma forma de política econômica que prescinde do Estado, embora uns achem isso ruim e outros o defendam. Pura balela! Capitalismo e estado-nação são fruto do mesmo processo histórico e um não existiria sem o outro. Não há liberalismo sem Estado. Aliás, não há liberalismo sem uma férrea ação estatal.

Sobre os Estados Unidos, primeiro país a nascer sob o credo liberal, este blog já revelou a atuação do CFIUS (veja aqui). Agora, surge a decisão do governo Obama contra a Samsung, no interior da guerra de patentes que a empresa sul-coreana trava com a Apple.

Nos primeiros rounds, um juri estadunidense condenou a Samsung a pagar cerca de US$ 1 bilhão à Apple por suposto uso não autorizado de patentes da Apple. O governo Obama não teve nenhum reparo a fazer. Contudo, uma inesperada decisão da Comissão de Comércio Internacional (ITC, na sigla em inglês) proibiu a venda, nos Estados Unidos, do Iphone 4 e do Ipad 2 por infração de patentes da Samsung. Embora a proibição não atinja modelos mais recentes da Apple, ela serviria para provar que há infrações de ambos os lados dessa guerra.

Eis, então, que, pela primeira vez desde 1987, o governo norte-americano resolveu vetar uma decisão da ITC. A decisão se traduziu em imediata valorização das ações da Apple e perda de US$ 1 bilhão no valor de mercado da Samsung. Os investidores da bolsa entenderam perfeitamente o recado: a despeito da pregação liberal usada para influenciar a política interna de outros países, os Estados Unidos não terão qualquer pudor em adotar medidas protecionistas e, até mesmo, passar por cima da lei para garantir os interesses das empresas nacionais.